O PREÇO DA CORAGEM

O PREÇO DA CORAGEM

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Hugo Leonardo

Em tempos em que muitos preferem o confortável silêncio, a coragem costuma sair caro. E não é metáfora, não. Sai caro politicamente, socialmente e, às vezes, até emocionalmente. Ainda assim, de vez em quando aparece alguém disposto a pagar essa conta. Em Andradina, esse alguém tem nome: Marcel Calestini.

Nos últimos dias, o cenário político regional esquentou — e não foi pouco. Após a decisão judicial que reconheceu Andradina como titular do VAF-ICMS da Usina de Três Irmãos, o vereador de Pereira Barreto, Daniel da Rádio, resolveu abrir o microfone da indignação e soltar o verbo. E soltou com gosto. Falou em “assédio jurídico”, acusou inveja, chamou políticos de “patetas” e por fim declarou que o “o governo de Andradina é inimigo de Pereira Barreto”; dizendo que é hora de “hora de ir para a guerra”. Enfim, uma declaração de ódio legítimo.

E não parou por ai, Daniel ainda declarou que “deputado que ficar do lado de Andradina é inimigo de Pereira Barreto” e que “o político que ficar a favor de Andradina é inimigo de Pereira Barreto e não deve ser recebido aqui”. Se houver guerra o Rio Tietê vai ser a grande trincheira.

No meio desse tiroteio verbal, um silêncio chamou atenção: o da maioria. Mas, como toda regra tem exceção, Marcel Calestini decidiu fazer o que poucos fazem — se posicionar. E se posicionar, nesse caso, não era a opção mais confortável. Era a mais necessária.

Ao publicar uma nota de repúdio, Marcel não só defendeu Andradina, como também fez algo ainda mais raro: pregou a paz. Em vez de entrar na lógica do “bateu, levou”, optou por lembrar que Andradina e Pereira Barreto sempre foram cidades irmãs, com trocas constantes na saúde, na educação e até no turismo. Ou seja, enquanto uns falavam em guerra, ele lembrava que a história sempre foi de parceria.

Mas não se engane: defender a paz, nesse contexto, exige mais coragem do que comprar briga. Porque é fácil gritar junto com a multidão. Difícil é ser a voz sensata no meio do barulho.

Marcel tem se mostrado esse tipo de figura: o amigo que não foge quando a confusão começa. Sabe aquele que aparece antes mesmo de você pedir ajuda? Pois é. Na política, isso é quase uma espécie em extinção. Seu companheiro de Câmara, André Lopes, já o batizou de “Xerife de Andradina”.

E talvez seja exatamente por isso que ele incomoda. Como já dizia Nelson Rodrigues, “Nada envergonha mais do que a coragem alheia”. A coragem expõe. Ela escancara a omissão dos outros, cutuca vaidades e, principalmente, assusta quem prefere o jogo morno dos bastidores.

Não é coincidência, portanto, que Marcel enfrente resistência. Quando alguém resolve agir com firmeza e constância, vira alvo. De grupos políticos organizados, de politiqueiros desorganizados e até da “imprensa financiada”. E aqui, traduzindo sem rodeios: tem gente que trabalha para desgastar sua imagem. E, como em todo bom enredo político, tem quem pague e quem receba por isso.

Ainda assim, ele segue. Sempre presente quando surge uma injustiça, sempre disposto a entrar em campo. Pode até não agradar a todos — aliás, dificilmente agradará —, mas coerência nunca foi um caminho popular.

Talvez por isso sua postura beire o heroísmo. Não aquele de capa e efeito especial, mas o heroísmo cotidiano, que aparece na hora certa e fala o que precisa ser dito. E isso, convenhamos, dá trabalho. E dá problema também.

Mas, como também ensinou Nelson Rodrigues, “A coragem é a única virtude que ninguém pode fingir”. Ou se tem, ou não se tem. E nesse ponto, Marcel parece não ter dúvidas de qual lado está.

No fim das contas, o preço da coragem pode ser alto. Mas a falta dela, essa sim, costuma custar muito mais caro.