A decisão da Prefeitura de Andradina de desapropriar o antigo Cine Capri trouxe de volta um debate necessário — e, desta vez, com uma oportunidade real de olhar para o futuro sem perder o respeito pelo passado.
Durante anos, o prédio permaneceu fechado, o que naturalmente gerou questionamentos sobre o aproveitamento de espaços tão bem localizados no centro da cidade. Não se trata de apontar culpados, mas de reconhecer um ponto importante da dinâmica urbana: áreas que deixam de receber uso ativo acabam perdendo relevância no cotidiano da população. E, quando isso acontece, todos perdem um pouco — o comércio, a convivência e a própria identidade do lugar.
O Cine Capri, por sua história, merece mais do que isso. Já foi um ponto de encontro importante, um espaço de experiências coletivas e de circulação de pessoas. A proposta de transformá-lo em um auditório reacende justamente essa vocação: a de reunir gente, promover cultura e fortalecer a vida urbana.
É claro que iniciativas assim pedem planejamento, transparência e diálogo com a população. A desapropriação, embora prevista legalmente e respaldada pelo princípio da função social da propriedade, deve sempre caminhar acompanhada de um projeto consistente e de garantias de que o espaço será, de fato, reativado e bem utilizado.
A crítica construtiva, nesse caso, não está na decisão de agir, mas na necessidade de assegurar que a ação se converta em resultado concreto.
Andradina carece de um espaço capaz de receber eventos de maior porte, e essa pode ser a chance de suprir essa demanda — desde que o projeto avance além da intenção.
Mais do que recuperar um prédio, a cidade tem diante de si a oportunidade de recuperar um sentido de pertencimento.
Espaços urbanos ganham valor quando são ocupados de forma positiva, quando abrem portas para encontros, atividades e novas memórias. Caso contrário, acabam ficando à margem da dinâmica urbana, sem cumprir plenamente seu potencial.
Que o debate siga, mas que ele seja acompanhado de passos firmes. Porque revitalizar não é apenas reformar estruturas — é dar propósito a elas. E, quando isso acontece, toda a cidade sente os efeitos.
HUGO LEONARDO