BRINCADEIRAS DE RUA DE ANTIGAMENTE E SUAS REGRAS

BRINCADEIRAS DE RUA DE ANTIGAMENTE E SUAS REGRAS

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André Davi Martins é Tubtenente da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.

O ano era mil novecentos e oitenta e pouco, meio dia e meia, acabou a aula. Chegava em casa vindo da escola. Após comer em dois minutos, pronto! O mundo era meu! Bora pra rua!

Para encontrar toda a turma, não era preciso mandar mensagens via Whatsapp (não existia) nem ligar, estariam lá, no mesmo lugar de sempre.

As opções eram quase infinitas: Andar de bicicleta (geralmente uma monareta velha sem para-lamas com freios de eficiência duvidosa), empinar pipas (sem cerol, com a rabiola feita de sacolas de mercado cortadas em tiras bem fininhas), jogar bola no campinho, nadar no “córgo”, jogar “bétia”, mamãe da rua, carrinho de rolimã e bolinha de gude. Bastava escolher e pronto, a tarde iria passar como um raio, quando dávamos conta o sol já se punha no horizonte e só então lembrávamos que tínhamos casa, que beber água, comer, tomar banho, tarefa, etc…

Para cada brincadeira havia um ritual e regras extremamente rígidas, que não estavam escritas em lugar nenhum, mas ninguém desobedecia:

No futebol os dois melhores não podiam jogar no mesmo time, então eles escolhiam os jogadores; ser escolhido primeiro era legal; ser escolhido por último era humilhante; os piores iram para a zaga; o pior dos piores ia para o gol, onde ficava por dez minutos ou até tomar dois gols; um time jogava com camisa e o outro sem; se houvesse um pênalti podia trocar o goleiro ruim por outro melhor; não havia juiz, se houvesse um lance que fosse considerado falta, bastava rolar no chão como se tivesse o coração sendo arrancado, isso bastava para ganhar o lance; se a bola saísse pela lateral, era só pegá-la rapidamente dizendo “nossa” e cobrar o lateral, como se nada tivesse acontecido, ou era lateral infinito, seguia o jogo até onde fosse possível; dedos destroncados ou sem a pele da frente era normal, segue o jogo; se o jogo fosse na rua, era só colocar duas latas ou dois chinelos de cada lado para fazer o gol (aí não tinha goleiro e era proibido ficar na banheira, protegendo o gol) e torcer para que os carros que passassem desviassem; lances duvidosos eram resolvidos no grito ou no tapa; quem chutava a bola longe tinha que ir buscar no mato ou no quintal do vizinho; a partida acabava quando a mãe do dono da bola viesse buscá-lo aos gritos ou quando anoitecia e, não importando o placar, quem fizesse o próximo gol ganhava a partida;

Na bolinha de gude as regras também eram rigorosas. No brifing inicial decidia-se se a disputa seria à “brinca” ou à “ganha”. Se fosse `a brinca, mesmo que o adversário atingisse sua bolinha com a dele, esta ainda lhe pertenceria. Se fosse à ganha, a sua bolinha passaria a pertencer ao adversário que a atingisse. O jogo consistia em acertar determinados buracos no chão (ocas) e depois a bolinha do adversário com a sua, então era um jogo muito estudado, onde se podia jogar no ataque, indo pra cima da bolinha do adversário, ou na defesa, jogando a sua bolinha o mais longe possível da bolinha dele, algo complexo como xadrez. Quando era a “ganha” a coisa era séria e o silêncio imperava, como nos jogos de tênis de hoje. Podia-se começar a partida com a “leiteira” (bolinha branca ou transparente com desenhos brancos, azuis ou verdes, bem mais cara e rara que as outras) ou o “burcão” e, nos lances cruciais, dizer “troquis” e trocá-la por uma mais feinha ou menor, para dificultar o acerto do adversário; se a bolinha escapasse das mãos na hora do arremesso, bastava dizer “escapis” ou “voltis” e repetir o lance; a “oca” (buraco do chão) tinha que ser feita girando o calcanhar na terra; se houvesse algum graveto ou monte de terra entre a bola a ser atingida e a sua, bastava dizer “limpis” e retirar o obstáculo.

Nossa meta de vida era ganhar alguns trocados e correr para o bar da vila. A imagem daquele potão de plástico transparente sobre o balcão do bar, cheio de bolinhas de gude dos mais variados tamanhos e cores, era uma visão do paraíso, algo para se admirar. Aquele trocado da mãe tinha destino certo, a aquisição de novas bolinhas.

E assim eram as tardes diárias passadas nas ruas dos antigamentes, não havia droga, ou se havia, ficava escondida. Se alguém ganhasse a fama de maconheiro, seria automaticamente excluído da turma. Não havia violência, nem ódio no coração por disputas de bairro, no máximo uma rivalidade decidida no campo de futebol. Ganhar uma bola de capotão ou uma bicicleta nova no natal era o ápice. Tomar tubaína com paçoca embaixo do “pé de sete copas” era um banquete.

E hoje? Evoluímos ou regredimos?