André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, escritor, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
O que você, leitor, diria se eu afirmasse que o Brasil já foi uma potência mundial, já foi respeitado em todo o planeta, já realizou investimentos pesados na ciência, nas artes, na logística e indústrias, já possuiu um exército e marinha que figuravam entre os mais fortes do planeta?
Acreditaria se eu dissesse que já vencemos guerras, com batalhas em terra e no mar, que já tivemos a quinta maior frota naval do mundo?
Me acharia louco? Pois eu afirmo que sim, que já vivemos este momento de pujança, mas um único acontecimento, na manhã cinzenta de um dia de novembro, mudou tudo isso, para sempre.
Estou me referindo ao Brasil império, por volta do final dos anos de 1800, no segundo reinado, com D. Pedro II no poder.
Imperador do Brasil por 49 anos, assumiu o trono aos 15 anos, com a ida de seu pai, D. Pedro I, a Portugal, para defender o trono de sua filha, deixando aqui seu filho de 5 anos.
D. Pedro II, amante das artes e da ciência, falava fluentemente 23 idiomas, tendo sido o primeiro e único governante a ser tão culto.
Era convidado frequentemente para feiras de ciência em todo o planeta. Se correspondia com Vitor Hugo, Charles Darwin e Louis Pasteur.
Em 1876, esteve na Exibição Internacional Centenária, na Filadélfia/EUA, onde testou pessoalmente a mais nova invenção de Alexander Graham Bell, o telefone, de quem ficou amigo.
Incentivou e financiou o empresário e industrial Barão de Mauá, que construiu centenas de quilômetros de ferrovias, além do telégrafo e navios, sendo na época o país que mais construía navios no planeta.
D. Pedro II andava nas ruas do Rio de Janeiro sem qualquer tipo de segurança, e doava seu salário para as causas sociais.
Na guerra contra o Paraguai, venceu batalhas importantes, em terra e no mar, como a batalha de Riachuelo.
A marinha do Brasil possuía na época 94 navios, sendo a quinta marinha mais poderosa do planeta.
Um acontecimento, entre outros tantos, porém, mudaria tudo. A questão abolicionista.
De um lado, havia uma grande campanha, grande pressão externa e interna, pela abolição e eliminação da escravidão. O movimento contava com a simpatia do imperador e, principalmente, de sua filha, a princesa Isabel.
De outro lado, havia a pressão contrária de todos os grandes fazendeiros, que possuíam milhares de escravos, responsáveis pela mão de obra nas lavouras, e queriam a manutenção da condição. Relatos e cálculos apontam que um escravo na época custava o valor que hoje seria suficiente para comprar um apartamento.
As Leis Eusébio de Queirós, em 1850, que proibiu o tráfico, a vinda de novos escravos da África para o Brasil, do Ventre Livre, em 1871, que libertava os filhos dos escravos nascidos após aquela data, e a Lei dos Sexagenários, em 1885, que libertava todos os escravos que completassem 60 anos, aumentavam a pressão em favor da abolição.
Em 13 de maio de 1888, durante uma viagem do Imperador, a princesa Isabel, que atuava como regente, assinou e promulgou a Lei Áurea, nº 3.353, extinguindo o trabalho escravo após quase 400 anos. Neste período cerca de 5 milhões de pessoas foram trazidas da África.
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, libertando cerca de 700 mil pessoas.
Ocorre que, ao promulgar a lei, sem qualquer reparação financeira para os grandes fazendeiros, a princesa Isabel comprou um enorme briga com a elite econômica.
O barão de Cotegipe teria dito à princesa Isabel: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono”, ao que ela teria respondido: “Se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil”.
O fato é que, apenas um ano depois da Lei Áurea, um plano traçado nos porões do poder da elite culminou, ao amanhecer de 15 de novembro de 1889, com a caminhada do Marechal Deodoro da Fonseca até o campo de Santana, onde militares estavam reunidos, subiu em um cavalo com grande dificuldade, devido a sua idade avançada e saúde frágil, tirou seu chapéu e proferiu a seguinte frase: “Viva a República!”.
Apenas isso, apenas uma frase, que mudaria para sempre o destino do nosso país.
No Paço Imperial, o presidente do Conselho de Ministros tentou organizar resistência com apoio de tropas legalistas. Entretanto, o comandante militar responsável pela segurança do local, o general Floriano Peixoto, recusou-se a combater os revoltosos e aderiu ao movimento, o que contribuiu decisivamente para o colapso do governo imperial.
Naquela mesma noite, a família imperial, que estava em Petrópolis, foi praticamente sequestrada, colocada em uma carruagem, levada ao porto do Rio de Janeiro, e embarcada a bordo do navio vapor Alagoas, seguindo para o exílio na França, onde o imperador iria falecer, de pneumonia, dois anos depois, no hotel Bedford, em Paris.
Como forma de humilhar o imperador deposto, hastearam no mastro do navio a Bandeira Provisória da República. Este pavilhão, criado por Rui Barbosa, foi inspirado na bandeira dos Estados Unidos, com 13 listras horizontais verdes e amarelas e um quadrado azul no canto superior, contendo 21 estrelas de prata.
Esta bandeira, que hoje está no acervo do museu imperial de Petrópolis, não foi aceita por Marechal Deodoro, que preferiu manter a bandeira já existente, substituindo a esfera armilar do brasão imperial, pelo círculo azul com estrelas, representando os Estados e a frase “Ordem e Progresso”.
Em seu funeral, recebeu honras de chefe de estado, com a presença de praticamente toda a monarquia da Europa presente nas homenagens.
Após estes fatos, o governo dito democrático do Brasil enfrentou todo tipo de golpes, planos que não deram certo, inúmeras moedas, outras tantas Constituições, e o resto sabemos.
A importância de D. Pedro II só foi restabelecida dezenas de anos depois, com o reconhecimento de sua competência, de seu amor pelo Brasil, de sua devoção por sua pátria amada, e é considerado o maior estadista do Brasil.