COMO UMA BATALHA NA EUROPA DECIDIU O FUTURO DE NOSSO PAÍS

COMO UMA BATALHA NA EUROPA DECIDIU O FUTURO DE NOSSO PAÍS

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André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, escritor, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.

Se o mundo é como é, hoje, geograficamente falando, com seus países, fronteiras, idiomas, nações, estados, regimes de governo e religiões, muita coisa aconteceu no passado, muitos fatos ocorreram ao longo dos séculos, moldando o planeta, desde sempre.

Se hoje vemos Rússia em guerra com a Ucrânia, por conquistas de territórios, EUA em guerra com o Irã por proteção contra armas nucleares, podemos pensar que estas ações são recentes, mas não são.

Há 2 mil anos já faziam guerras, pelos mais variados motivos, mas o preponderante sempre foi a conquista de territórios.

Nomes como Gengis Kan, da Mongólia, Alexandre, o grande, da Macedônia, Júlio Cesar, da Itália, Napoleão Bonaparte, da França, Ragnar Lotbrok, dos países nórdicos, deixaram um enorme legado de conquistas de países e até de continentes.

Com o declínio do império romano, em 476, que mantinha quase toda a Europa unida, houve um fenômeno de individualização dos reinos, ou feudos.

Com isso, cada soberano, com seus castelos e nobres, comerciantes e trabalhadores braçais, tratou de se armar, formar seu exército, em busca de proteção.

Ocorre que, quando um nobre queria, e tinha exército suficiente, ele simplesmente invadia o feudo vizinho e o conquistava, anexando suas terras às dele. Essas conquistas foram formando a maioria dos países da Europa e Ásia.

Algumas destas batalhas ganharam importância e relevância.

Os chamados bárbaros, que saíram de onde hoje é a Alemanha, e derrotaram o império romano. O muçulmano Saladino, que em 1186 invadiu e conquistou a cristã Jerusalém. Os reinos de Castela e Leão, que se uniram em 1200 e depois, por volta de 1470, se uniram ao reino de Aragão, com o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, e formaram a Espanha.

Porém, entre tantas batalhas, uma em especial merece destaque, porque influencia diretamente nosso destino como nação.

Era agosto de 1385, em Portugal, um país recém-construído, ainda em busca de consolidação de suas fronteiras.

Seu rei, D. João, filho bastardo do rei que havia falecido, havia acabado de assumir o trono. Seu exército, somando todos os homens, mal chegava a 7 mil combatentes.

Ciente disso, os reinos vizinhos de Castela e Leão, que unidos possuíam 30 mil homens, além de mercenários franceses e italianos, invadem Portugal, assumindo o controle de diversas cidades menores, marchando em direção a Lisboa.

O rei de Portugal sabia da gravidade da situação. Se perdesse aquela guerra, seu país deixaria de existir para sempre.

Na reunião com seus ministros, foi aconselhado a se render. Uma vitória parecia impossível.

Um dos nobres, de 23 anos, chamado Nuno Alvares Pereira, porém, discordou, declarando que era possível derrotar o inimigo, sendo chamado de louco pelos demais conselheiros.

Ao ser desacreditado, saiu de Lisboa com pouco mais de 2 mil homens, entrando em combate e reconquistando diversas cidades menores das mãos dos inimigos, incentivando a coragem do rei, que finalmente decidiu reagir e lutar.

Na cidade de Aljubarrota, em agosto de 1385, o rei reúne seu exército e, juntamente com Nuno, traça sua estratégia.

Nuno escolhe um local íngreme, de difícil acesso, com terreno pedregoso, que iria prejudicar o avanço da cavalaria inimiga, e ali monta suas defesas, com a construção de fossos, paliçadas e armadilhas com estacas escondidas no solo.

Ao entardecer de 14 de agosto, o inimigo avançou.

Percebendo o número reduzido de portugueses, acharam que seria uma batalha fácil, e não se preocuparam em traçar qualquer estratégia, apenas avançaram acreditando em uma vitória fácil e arrasadora.

Ao avançarem, os espanhóis foram surpreendidos por uma chuva de flechas, que mataram milhares de homens imediatamente, ao mesmo tempo que não conseguiam avançar com seus cavalos pelo terreno acidentado, que escorregavam nas pedras ou eram simplesmente empalados pelas estacas escondidas no terreno.

Foram então atacados pelos flancos pelos portugueses, ocasião em que os espanhóis se desesperaram, e iniciaram uma fuga desorganizada, pisoteando os que não conseguiam permanecer de pé.

A batalha de Aljubarrota durou trinta minutos, meia hora, mas 5 mil espanhóis morreram, e os demais fugiram.

Seu rei, Dom Juan, ao ver o triste fim da batalha, foi um dos primeiros a fugir em um cavalo, de forma desonrosa e covarde, abandonando seus comandados à própria sorte.

Durante a retirada, foram perseguidos pelos portugueses, e outros tantos milhares pereceram.               

Ao término do combate, os riachos estavam vermelhos de sangue, o solo repleto de corpos, que por lá permaneceram por meses e meses.

A Espanha perdeu tantos nobres que decretou luto oficial de 2 anos.

Esta batalha foi decisiva para o futuro de Portugal.

Dom João foi o fundador da dinastia de AVIS.

Nuno Álvares Pereira foi reconhecido como gênio militar, é o patrono da cavalaria de Portugal, e posteriormente, em 2009, foi canonizado pela igreja católica como santo.

O apoio recebido da Inglaterra deu início ao tratado de Windsor, em vigor até hoje, sendo o tratado militar mais antigo em vigor do mundo.

O filho do rei, o infante Don Henrique, dedicou-se às grandes navegações e descobertas.

Criou a escola de Sagres, para formar navegadores.

Portugal realizou a expansão marítima aos 4 cantos do planeta, descobriu o caminho para as índias, por Vasco da Gama, descobriu o Brasil, por Pedro Álvares Cabral, conquistou a cidade de Ceuta, na África, se tornando o primeiro império global.

A língua portuguesa se espalhou pelos 4 continentes, hoje mais de 280 milhões de pessoas no mundo falam português, do Brasil ao Timor Leste, Angola, Macau.

Arqueólogos mapearam e descobriram, no campo de São Jorge, o local exato da batalha, onde encontraram os fossos cavados nos campos de batalha.

Um único fato, uma única batalha, que durou meia hora, definiu o futuro de Portugal e, por conseguinte, o futuro do Brasil, que certamente não teria sido descoberto e colonizado pelos portugueses.