André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, escritor, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
Estamos no mês de setembro amarelo, com a prevenção ao suicídio. Portanto, abordaremos este tema de forma leve, procurando ao máximo não criar gatilhos, mas ao contrário, levar conhecimento e orientação sobre este tema que é muito penoso, mas existe.
Os estudos dividem os suicidas em três grandes grupos: os depressivos, os psicóticos e os agressivos, cada um com suas particularidades, modus operandi, abordagens e reações diferentes.
A Polícia Militar do Estado de São Paulo detectou um aumento exponencial nas ocorrências envolvendo suicídios e tentativas de suicídio que, por regra interna, não são divulgados na mídia ou imprensa, mesmo os que tem desfecho favorável, para minimizar os gatilhos.
A Corporação, que possuía protocolos, procedimentos operacionais e diretrizes para o atendimento de todo tipo de ocorrência, se viu diante de um quadro novo, com situações diárias de suicídios consumados e tentados, atendidas por policiais militares que não possuíam nenhum conhecimento técnico sobre o tema.
Diante deste quadro, o Corpo de Bombeiros criou, em 2021, um grupo de estudos, comandados pelo então Major Diógenes Martins Munhoz, especialista no tema, já tendo atuado em mais de 50 ocorrências reais com absoluto sucesso, com diversos livros publicados. Este grupo criou então um protocolo de atendimento de ocorrências denominado “Abordagem Humanizada a Pessoa com Propósito Suicida”, em que se buscou o aprofundamento nas origens e causas, as divisões dos perfis e, principalmente, na abordagem e atendimento, de forma técnica e humanizada, para cada um dos casos.
Policiais de todos os batalhões do estado foram enviados para a capital em busca deste conhecimento, e posteriormente atuaram como multiplicadores nas unidades, para todo o efetivo, tendo este que vos fala sido um dos multiplicadores do conhecimento na área do 28º BPM/I.
Os fatores desencadeantes para o suicídio são: Transtornos psiquiátricos mais comuns que podem ser fatores de risco para o cometimento do suicídio como depressão, transtorno bipolar, dependência de álcool e outras drogas, esquizofrenia, transtornos de personalidade, burnout, etc.
Além desses, o risco de consumação do ato aumenta entre aqueles com histórico familiar de suicídio ou de tentativa de suicídio. Doenças clínicas não psiquiátricas foram associadas ao suicídio, tais como câncer, HIV, doenças neurológicas, doença de Parkinson. Destacam-se ainda outras situações: a desesperança, o desespero, o desamparo e a impulsividade. Outros eventos que precisam ser cuidados são: maus tratos na infância ou adolescência.
Alguns mitos são erroneamente difundidos sobre o tema:
1° MITO: “As pessoas que tentam o suicídio realmente querem se matar.” Ambivalência é um sintoma marcante nos tentantes. Muitos não querem morrer, querem simplesmente escapar de uma situação insuportável.
2° MITO: “Se uma pessoa tentar matar-se uma vez, é menos provável que ela volte a tentar.” Cerca de 50% dos tentantes que não são acompanhados ou não persistem nos tratamentos adequados voltam a tentar ou consumam o suicídio.
3° MITO: “Existem casos em que as pessoas só querem chamar a atenção, se quisessem realmente se matar, já o teriam feito.” Cada pessoa reage de uma forma frente ao problema que considera insuportável. Qualquer pessoa que expõe sua vida ao risco quando ameaça cometer suicídio, precisa de tratamento adequado e merece toda atenção por parte das equipes destacadas para o atendimento da emergência. Lembre-se: TODO TENTANTE QUER CHAMAR A ATENÇÃO. É SUA FORMA DE TENTAR GRITAR POR AJUDA E CHEGAR ATÉ ALGUÉM QUE POSSA SOLUCIONAR SEU PROBLEMA!
De acordo com os dados da OMS (2012), há mais suicídios entre os homens (15 para cada 100 mil habitantes) do que entre as mulheres (8 para cada 100 mil habitantes), porém, no grupo dos chamados “sobreviventes de si mesmos”, as mulheres são maioria (80%), ou seja, os homens, quando tentam se matar, são mais efetivos.
Mas o que fazer para prevenir o aparecimento deste pensamento? Quais os fatores de proteção naturais?
Destacamos: Vínculos saudáveis com familiares e colegas de trabalho, resiliência, capacidade de expressar sentimentos, vida social e lazer, desvinculadas do uso ou abuso de álcool e de outras substâncias, ambiente de trabalho saudável, espiritualidade, religiosidade, autoestima, suporte familiar, laços sociais bem estabelecidos com a família e amigos, ausência de doença mental, estar empregado, capacidade de adaptação positiva e de resolução de problemas.
A família, amigos e colegas de trabalho desempenham papel fundamental na prevenção ao suicídio, com observação atenta, principalmente das pessoas na faixa com mais propensão, adolescentes e idosos. Ao surgimento dos primeiros sinais como depressão, isolamento, apatia, manifestação de pensamentos suicidas, verbalização do cometimento de suicídio, devem procurar ajuda especializada (psiquiatria) imediatamente.
Um erro cometido com frequência pela família do suicida é esconder o caso de todos, por medo, tabu ou vergonha, fazendo como que o problema não seja resolvido, mas fique incubado, como uma bomba relógio, que irá explodir uma hora ou outra.
Ao se depararem com um suicídio já consumado ou em andamento, a orientação é acionar a Polícia Militar imediatamente, que saberá atuar com técnica, empatia e humanidade em ambas as situações. É uma ocorrência extremamente complexa, que envolve um aparato robusto, isolamento e diálogo, e geralmente não tem o desfecho rápido, mas pode demorar horas e até dias.
“Amigo de verdade, é aquele que chega quando todo mundo já se foi.”
Fontes consultadas:
– Campanha Setembro Amarelo® Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP
(21) 2199-7500 | setembroamarelo@abp.org.br
– Abordagem humanizada a pessoa com propósito suicida – Coronel Diógenes Martins Munhoz.
– Neury José Botega – Psiquiatra