Sempre repeti que “família é tudo”.
É o elo mais próximo entre nós e outro ser humano, além da genética: convivência, memória, amor.
Mas diante das atrocidades que hoje se multiplicam dentro das próprias casas, esse conceito precisa ser repensado.
Há quem seja explorado pela família e continue se doando, sem perceber que se apaga no processo.
Há mães que se sacrificam até desaparecer, quando talvez o certo fosse um pouco de egoísmo para não deixar de existir.
Há mulheres que se anulam acreditando que a abnegação trará amor, mas acabam traídas, abandonadas.
São inúmeros os casos de desamor, traição e violência vindos de quem deveria proteger.
Laços consanguíneos não se rompem, mas as dores e os traumas se inscrevem para sempre.
E quanto maior a confiança no familiar, mais fundo a decepção crava suas cicatrizes.
Apesar de tudo, ainda é a família que sustenta a sociedade, essa mesma sociedade que molda indivíduos distorcidos, presos a dogmas, fanatismos e padrões sufocantes.
Família de verdade é outra coisa: é amor e respeito, é confiança e individualidade,
é presença quando necessária, é companhia nos bons e nos maus momentos.
Fora disso, torna-se apenas peso,..
Aliança que aprisiona, acordo que sufoca.
Família é reconhecer que cada ser é único, mesmo nascendo do mesmo ventre.
É compreender as diferenças, sem abrir mão do retorno de respeito e consideração.
Porque o mal, o preconceito, a inveja, a traição, todos apontam para o outro, mas raramente olhamos para nós.
As gerações mudam, a cultura interfere, o país molda, as feridas se acumulam.
Muitos escolhem a solidão, sem perceber que foi a decepção que os empurrou para o isolamento.
Mas o humano, acima de tudo, está aqui para experienciar, superar, levantar-se e carregar um legado.
E nesse caminho, família pode ser ninho, um espaço que acolhe mais um, que lixa arestas, que ensina empatia, que transforma a dor em maturidade.
Família, no fim, não é apenas sangue. É escolha diária.
Elizabeti Féllix