André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
No texto anterior iniciei uma discussão sobre os rodeios, falando que a emissora Globo está transmitindo uma série sobre o tema, desmistificando o esporte.
Falei ainda sobre as duas vertentes, de quem critica o esporte, argumentando que os animais sofrem todo tipo de sofrimento físico e psicológico, que os cavalos e touros entram na arena utilizando uma corda “seden” que aperta seus órgãos genitais provocando dor forte o suficiente para fazê-los saltar, que estas cordas por vezes possuem arame farpado ou cacos de vidro, que eles sofrem lesões provocadas por esporas afiadas que cortam a pele, que os animais utilizados nas vaquejadas ou provas de laço sofrem lesões na cauda ou na coluna no momento em que são desequilibrados para caírem ao solo, que estas quedas provocam lesões que por vezes os tornam paraplégicos a ponto de terem de ser sacrificados, enquanto os que são favoráveis alegam que os cavalos e touros que participam dos eventos são escolhidos entre os melhores e mais fortes do rebanho, que após serem escolhidos, escapam da castração, e passam a serem preparados para serem atletas, tratados com as melhores rações e suplementos, usando piscina para se exercitarem, transportados em caminhões especialmente preparados e acolchoados, trabalhando sete segundos por noite, apenas aos fins de semana, e ao se aposentarem eram poupados do abate e iam viver nas fazendas dos seus criadores, livres leves e soltos.
Falei ainda que os eventos geram milhares de empregos diretos e indiretos, receitas para os municípios onde os eventos ocorrem, para os empresários envolvidos, para os donos das companhias de rodeio, para os peões, etc…
Neste segundo texto sobre o tema, quero falar de outros animais, que são criados para serem abatidos e se transformarem no seu suculento bife diário, no filé de frango ou no churrasco do fim de semana.
Você que aprecia um bom bife, um bom churrasco, sashimi, filé de frango, pururuca ou torresmo de porco, saiba que estes produtos não dão em árvore nem tampouco são plantados.
Para que o bife chegue em sua mesa, é necessário que o bezerro, ao nascer, é imediatamente separado de sua mãe para que o leite desta, que lhe seria seu por direito, seja retirado e vendido. Em sua adolescência, o bezerro é “mochado”, processo que consiste em serrar seu pequeno chifre e, com um ferro quente, cauterizar o ferimento sem qualquer anestesia. Logo depois ele é marcado na pele com outro ferro quente, para que ali permaneça a marca de seu dono. Logo depois, é castrado, processo em que seu saco escrotal é cortado com um canivete ou faca afiada e seus “bagos” são retirados, ficando a ferida aberta para cicatrizar de dentro pra fora, também sem anestesia.
Quando este boi, que ingere todo tipo de remédios, hormônios de crescimento e vacinas, atinge o peso ideal de abate, é fechado em um curral, colocado dentro de um caminhão (aí sim ele leva choques para entrar) e vai para o frigorífico, onde fica 24 horas sem comer ou beber água, até ser colocado em um longo corredor, fechado em um compartimento apertado, onde é atingido na testa por um pino de aço disparado por pistola pneumática, que atinge seu cérebro, e morre. Logo em seguida, é pendurado por um gancho, tem a cabeça e couro retirados, é esquartejado em pequenos pedaços, embalado e colocado em câmaras frias, para depois ser transportado em carretas para os mercados e açougues, até parar na sua mesa ou churrasqueira.
O porco, que gera aquela suculenta pururuca, não tem melhor sorte, nasce e cresce em jaulas metálicas suspensas tão estreitas e apertadas que impedem que ele se vire, permanece a vida toda em uma única posição, de frente para o cocho com a ração e a água, comendo e defecando, até ser, semelhante ao boi, abatido, embalado e transportado.
Com o frango não é diferente. Os pintinhos nascem em grandes fazendas produtoras. Quando ocorre nascimento excessivo de pintinhos, estes excedentes são jogados vivos em grandes trituradores para virarem ração para os pintinhos sobreviventes, que vão viver em viveiros por 45 dias comendo ração com hormônios e antibióticos, até serem abatidos, embalados e transportados.
Coelhos e rãs vivem semelhante penitência.
Já o peixe, que tanto apreciamos, é criado em pequenos viveiros, em rios ou lagos, comendo também ração impregnada de hormônios e outras drogas, até ser recolhido, abatido e enviado para a residência do seu consumidor final.
Deste modo, se focarmos a questão de forma fria e técnica, analisando apenas o sofrimento infligido a cada um destes animais, os que atuam em rodeios, e os que não atuam, constataremos que os animais escolhidos para atuarem nas festas de rodeios são infinitamente mais sortudos que aqueles que não o são.
Se pudéssemos perguntar à cada um deles para onde gostariam de ir, se para o rodeio ou para o abate, qual seria a resposta?
A bíblia trata da questão dos sacrifícios de animais tanto no velho (Levítico 4:35; 5:10), (Gênesis 3:21, 4:4-5, 8:20-21, 22:10-13) quanto no novo testamento, quando Jesus partilhou peixes para alimentar a multidão (Mateus 14:13-21, Marcos 6:31-44, Lucas 9:10-17 e João 6:5-15). Jesus escolheu como discípulo Simão Pedro, que era pescador. Os apóstolos Tiago e João também eram pescadores. A bíblia fala ainda, principalmente no velho testamento, de sacrifícios de animais à Deus, como forma de expiar os pecados.
Desta forma, longe de querer defender esta ou aquela posição, a intenção destes artigos não é a apoiar ou criticar o uso de animais para consumo humano ou festas, apenas jogar luz sobe o tema com argumentos técnicos e claros.