Jornalista defende que a IA ampliará a produtividade dos negócios, mas alerta para riscos como a falsa sensação de conhecimento, a perda de talentos e decisões baseadas exclusivamente na tecnologia
A inteligência artificial não substituirá profissionais qualificados, mas transformará profundamente a maneira como empresas, governos e organizações trabalham. O maior desafio, porém, não será tecnológico, e sim humano: aprender a delegar à IA aquilo que ela faz melhor, preservando nas pessoas as decisões que exigem experiência, responsabilidade e senso crítico.
Essa foi a principal mensagem do jornalista e escritor Pedro Doria, durante palestra promovida pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), em encontro do Conselho Consultivo de Entidades Representativas Parceiras.
Segundo Doria, um dos maiores riscos da popularização da inteligência artificial é a falsa sensação de domínio sobre temas complexos. Para ilustrar essa realidade, ele compartilhou uma experiência pessoal, quando utilizou ferramentas de IA para tentar compreender uma lesão no ombro, mas somente um especialista identificou corretamente o problema.
“O principal risco da inteligência artificial é a ilusão de que somos capazes de entender um assunto complexo apenas conversando com um modelo. Eu realmente achei que conseguiria descobrir sozinho o meu problema. Não consegui. Foi um especialista que resolveu.”
Apesar do alerta, Doria destacou que a tecnologia já produz resultados concretos em áreas como a medicina, sendo capaz de identificar padrões e antecipar diagnósticos com precisão crescente. Para ele, a tendência é que profissionais passem a concentrar esforços nas decisões mais complexas, enquanto atividades repetitivas serão cada vez mais executadas com apoio da IA.
“A discussão não é se a inteligência artificial substituirá os profissionais. A discussão é quais tarefas cada profissão poderá delegar à tecnologia e quais continuarão exigindo responsabilidade humana”, afirmou.
No ambiente empresarial, Doria chamou atenção para outro desafio: a formação das futuras lideranças. Segundo ele, substituir profissionais iniciantes apenas para reduzir custos pode comprometer a capacidade das empresas de formar especialistas e gestores nos próximos anos.
“É muito tentador substituir pessoas por inteligência artificial. Mas, se deixarmos de formar os profissionais de hoje, quem serão os executivos, os engenheiros e os especialistas que assumirão a responsabilidade pelas empresas daqui a dez anos?”
Na avaliação do jornalista, experiências práticas mostram que o melhor caminho não é a substituição indiscriminada de equipes, mas o aumento da produtividade por meio do uso inteligente da tecnologia.
Ele citou a experiência do Meio, empresa da qual é fundador e editor, onde a adoção da inteligência artificial permitiu ampliar a produção sem reduzir o quadro de funcionários.
“Estamos conseguindo fazer mais com a mesma equipe. A inteligência artificial tornou a empresa mais eficiente, mas isso não significa que faça sentido substituir quem produz conhecimento.”
Durante o debate, Doria também relacionou a revolução tecnológica aos desafios estruturais do Brasil. Para ele, produtividade, educação de qualidade, responsabilidade fiscal e modernização da gestão pública continuam sendo os principais entraves ao crescimento econômico do País.
“O Brasil sabe quais problemas precisa resolver. O que falta é enfrentá-los”, resumiu, ao defender que avanços tecnológicos precisam ser acompanhados por reformas capazes de elevar a produtividade e a competitividade nacional.
Ao encerrar a palestra, Pedro Doria incentivou empresas e entidades a experimentarem a inteligência artificial desde já. Segundo ele, somente quem utiliza essas ferramentas na prática consegue compreender seus limites, seus riscos e seu verdadeiro potencial para transformar os negócios.
Fonte: acsp.com.br