Em entrevista à Plataforma Impactos Positivos, Sebrae traz reflexões sobre como uma dificuldade pode gerar novas soluções.
Para Philippe Figueiredo, analista de Inovação do Sebrae Nacional, uma nova geração de empreendedores está transformando problemas sociais e ambientais em soluções de mercado; parceria com a Plataforma Impactos Positivos, criada por Gisele Abrahão, procura dar visibilidade a essas histórias
Algumas empresas começam com uma ideia. Outras, com uma pergunta. Há também aquelas que nascem de um incômodo: por que o lixo está sendo descartado dessa maneira? Por que determinada comunidade não tem acesso a uma solução? Por que um problema que afeta tanta gente continua sem resposta?
Para Philippe Figueiredo, analista de Inovação do Sebrae Nacional, muitas das pessoas que estão criando negócios de impacto no Brasil começam justamente daí: da experiência direta com um problema.
Não existe um perfil único. Pode ser um pesquisador ou alguém que passou anos desenvolvendo conhecimento científico. Pode ser também uma pessoa que vive uma situação de vulnerabilidade ambiental ou social e, ao enxergar aquela realidade todos os dias, decide criar uma empresa para tentar transformá-la.
Há ainda profissionais que passaram por grandes empresas ou pelo mercado financeiro e, depois de uma trajetória convencional, começaram a procurar algo que tivesse mais significado. São trajetórias diferentes, mas que convergem na busca por propósito e pela possibilidade de produzir algum tipo de transformação.
Essa mudança é especialmente perceptível entre os mais jovens. Figueiredo observa uma tendência de associar empreendedorismo não apenas à geração de receita, mas também à possibilidade de produzir impacto. O comportamento do consumidor acompanha esse movimento, com uma atenção maior à sustentabilidade, à origem dos produtos e aos efeitos das cadeias produtivas. Comprar deixa de ser apenas escolher um preço ou uma marca e passa, para uma parcela crescente dos consumidores jovens, a significar também escolher aquilo que se quer incentivar.
Antes mesmo de chegar ao consumidor, porém, muitas iniciativas enfrentam outra dificuldade: não conseguem contar a própria história.
Figueiredo conhece esse fenômeno também por sua experiência anterior em organizações. Há pessoas e instituições que fazem muito, mas não conseguem comunicar com clareza aquilo que fazem. O resultado é um paradoxo: justamente quem poderia precisar de mais visibilidade pode ser quem menos consegue obtê-la.
Nesse ecossistema, visibilidade significa muito mais do que reconhecimento. Pode representar um cliente, um parceiro, um investidor ou até um novo empreendedor inspirado por aquela experiência. Pode ser também o que permite que uma solução deixe de ser pequena e alcance outras pessoas.
É nessa fronteira que aparece a plataforma Impactos Positivos.
Criada por Gisele Abrahão, CEO e fundadora da iniciativa, a Plataforma Impactos Positivos nasceu para identificar, reconhecer e ampliar a visibilidade de pessoas, negócios e organizações que transformam realidades por meio de soluções de impacto social, ambiental, científico, econômico e educacional. “Mais do que reunir iniciativas positivas e sustentáveis, conectamos seus protagonistas a um ecossistema estratégico de parceiros, investidores, especialistas e instituições, criando oportunidades de desenvolvimento, colaboração e escala. Ao valorizar quem empreende com propósito e gera resultados concretos, construímos referências capazes de inspirar e impulsionar uma economia mais inclusiva, inovadora, diversa e sustentável”, conta Gisele Abrahão.
A proposta é fazer com que essas histórias circulem. A premiação da plataforma ajuda a reconhecer as iniciativas, mas o movimento vai além de uma cerimônia: trata-se de criar um espaço em que diferentes atores possam se encontrar e enxergar uns nos outros possibilidades de conexão.
É justamente essa comunidade que volta a se encontrar em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo, durante o 6º Encontro Impactos Positivos.
Para o Sebrae, o patrocínio é estratégico. Figueiredo vê na participação uma maneira de gerar negócios, atrair clientes e estimular novos empreendedores. Um caso bem-sucedido pode funcionar como referência para quem ainda não sabe que é possível transformar uma inquietação em empresa.
Para que uma empresa consiga crescer, no entanto, propósito sozinho não basta. O acesso a capital também é fundamental.
O Sebrae atua na preparação de negócios de impacto e na aproximação deles com fundos especializados. São investidores que não analisam apenas quanto dinheiro uma empresa pode gerar, mas também os resultados que ela produz para a sociedade e o meio ambiente.
Na definição de Figueiredo, enquanto o investidor tradicional pensa em investimento e retorno, o investidor de impacto acrescenta uma terceira dimensão: o impacto produzido. Em alguns casos, isso permite trabalhar com um capital mais paciente, que aceita esperar pelo retorno enquanto a empresa desenvolve sua solução e produz resultados.
A possibilidade de escala é outro elemento importante nessa equação. Os desafios que esses negócios tentam enfrentar são grandes: fome, desigualdade, saúde, educação e preservação ambiental. O governo tem um papel fundamental, mas seus recursos são limitados. Uma empresa, quando encontra uma solução pela qual o mercado está disposto a pagar, pode ampliar sua atuação em uma proporção diferente.
É por isso que Figueiredo entende os negócios de impacto como parte de uma nova economia: não uma economia que abandona o lucro, mas uma que procura conciliar resultados econômicos com a preservação das condições humanas e ambientais.
A tecnologia acrescenta uma nova camada a esse cenário. A inteligência artificial é hoje uma das frentes de atuação do Sebrae, que oferece cursos gratuitos para empresários e programas de apoio mais individualizado. Figueiredo cita uma iniciativa em Santa Catarina dedicada à aceleração de startups de IA, que considera um dos grandes vetores de desenvolvimento e geração de empregos.
A tecnologia pode mudar a maneira como uma empresa trabalha, mas a pergunta central permanece: qual problema ela está tentando resolver?
Talvez seja justamente essa questão que una os diferentes empreendedores que Figueiredo encontra. O pesquisador procura uma resposta para uma questão ainda aberta; o profissional do mercado busca um propósito; o jovem procura uma maneira diferente de empreender e consumir; e o investidor procura retorno, mas também impacto.
Nesse cenário, a plataforma Impactos Positivos procura fazer com que essas pessoas e iniciativas sejam vistas. Afinal, uma solução que permanece desconhecida pode continuar pequena. Quando encontra visibilidade, pode encontrar mercado. E, ao reunir mercado, capital e propósito, pode alcançar a escala necessária para transformar o problema que a fez nascer.
Sobre a Impactos Positivos
Somos uma plataforma de conexão, incentivo e visibilidade dedicada a fortalecer negócios que geram transformação socioambiental.
Fonte: globalvisionaccess.com
Foto: Philippe Figueiredo, analista de Inovação do Sebrae Nacional. Créditos: Impactos Positivos