André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
A emissora GLOBO vem transmitindo, em horário nobre, há algumas semanas, um especial bastante amplo e completo sobre o rodeio. Denominada “Vida de Rodeio”, estreou em 07 de outubro de 2025, exibindo os bastidores do esporte. A série, com 8 episódios, foi produzida pela equipe do programa Globo Rural, em parceria com a PBR Brazil, e foi gravada ao longo de um ano, destacando a cultura do rodeio profissional, mostrando a rotina diária dos competidores e os desafios enfrentados. A série também mostrou vida e a trajetória de atletas como Adriano Morais, tricampeão mundial, Rogério Venâncio e Anderson Sucuri, que foram campeão e vice no Brasil em 2024.
“Vida de Rodeio” surge como um convite para que milhões de brasileiros conheçam de perto o mundo dos rodeios profissionais, visando legitimar o esporte perante um público mais amplo, fortalecendo a imagem positiva da Montaria em Touros no imaginário nacional.
Considerado o esporte mais perigoso do planeta pelo alto risco e índices de acidentes graves e até fatais, já foi, por muitos anos, e por muitas vertentes, criticado e demonizado, acusado de ser o causador de todo tipo de maus tratos aos animais.
Ao mostrar o cotidiano e a rotina dos atletas, em nível mundial, como Adriano Moraes, tricampeão mundial já aposentado e presidente da PBR Brazil, que na década de 90 foi o primeiro brasileiro a competir e vencer na elite do esporte dos Estados Unidos, abrindo caminho para as futuras gerações que fizeram sucesso na América do Norte, o programa desmistificou muitas lendas.
Outros campeões mundiais da nova geração terão suas histórias retratadas em diversos episódios. Cássio Dias Barbosa, mineiro de 22 anos de idade, conquistou o título nacional pela PBR em 2022 e chegou aos Estados Unidos como uma grande promessa do esporte. Apesar de um início não tão fácil, deu a volta por cima e em 2024 tornou-se um dos mais jovens campeões mundiais da história da Liga, em uma campanha espetacular na busca pelo prêmio de 1 milhão de dólares.
José Vitor Leme, que também conquistou o título nacional da PBR em 2017 antes de estrear de forma espetacular nas arenas norte-americanas, já é considerado um dos maiores atletas de todos os tempos, devido aos recordes que acumula durante a carreira. Leme, que havia ganho dois títulos mundiais em 2020 e 2021, chegou ao terceiro título este ano, tornando-se apenas o terceiro homem da história a ter este feito. A vitória veio em uma campanha emocionante que envolveu a superação de lesões e fraturas, além da maior virada de pontos da história da PBR, que será contada em detalhes na série.
Como em todas as áreas do esporte, Andradina não podia ficar de fora. Nossa cidade produziu um grande campeão de rodeio.
Tetracampeão brasileiro de montarias em touros, Edevaldo Ferreira foi o grande campeão nacional do ACR BGB SUPER CUP 2022, conquistando uma camionete 0KM. O número 1 do Brasil é de Andradina e se tornou atleta profissional de montaria em touro. Aos 41 anos de idade, Edevaldo Ferreira conquistou quatro títulos de campeão nacional, em diferentes associações, sendo dois pela PBR Brazil, um pela Liga Nacional de Rodeio e outro no Top Team Cup, além de ser finalista mundial da PBR por duas vezes.
Buscando valorizar os profissionais do rodeio, principalmente os peões, Edevaldo se juntou a outros cowboys e fundaram a ACR – Associação de Campeões de Rodeio, em 2015. Nesse ano de 2022, a ACR firmou parcerias e lançou um campeonato próprio, chamado ACR BGB Super Cup, onde Edevaldo se tornou campeão no último dia 27 de novembro em Ibirarema/SP.
Fiz este preâmbulo para iniciar aqui uma discussão que já foi mais acalorada, a questão do bem estar dos animais, quando uma grande parcela de defensores acusava o rodeio e as vaquejadas de serem esportes cruéis, que maltratavam os animais envolvidos.
Em 17 de agosto de 2019, durante a abertura da 64ª Festa do Peão de Barretos o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto que trata de protocolos sobre bem-estar de animais utilizados nos rodeios. Segundo o decreto, compete ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, como instância central do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária, avaliar os protocolos de bem-estar animal elaborados por entidades promotoras de rodeios.
Este foi mais um capítulo na longa batalha que vem sendo travada entre os ambientalistas e defensores dos direitos dos animais contra os defensores das tradicionais festas que envolvem animais como rodeios e vaquejadas.
A justiça já foi acionada diversas vezes por ambas as partes litigantes e já se manifestou contra e a favor, dependendo das instâncias acionadas.
Eu mesmo, enquanto Policial Militar, já fui incumbido, aqui mesmo em Andradina, Castilho e Nova Independência, de prestar apoio a oficiais de justiça, que foram designados pelo juiz da comarca, a comparecerem e constatarem, in loco, a eventual presença de práticas ou objetos que porventura pudessem maltratar os animais nos rodeios, movidos por ações judiciais impetradas por terceiros, defensores das causas animais.
Nas ocasiões em que atuei como Policial, em apoio ao oficial de justiça designado pelo fórum, adentramos nos bretes dos rodeios e vistoriamos pessoalmente as chamadas cordas “sedem”, que são colocadas na parte traseira dos animais, e as esporas dos peões, e pudemos constatar a ausência de qualquer material cortante, ou que pudesse causar qualquer dano ou sofrimento no animal.
Quem é contra rodeios e vaquejadas argumenta que os animais sofrem todo tipo de sofrimento físico e psicológico, que os cavalos e touros entram na arena utilizando uma corda “seden” que aperta seus órgãos genitais provocando dor forte o suficiente para fazê-los saltar, que estas cordas por vezes possuem arame farpado ou cacos de vidro, que eles sofrem lesões provocadas por esporas afiadas que cortam a pele, que os animais utilizados nas vaquejadas ou provas de laço sofrem lesões na cauda ou na coluna no momento em que são desequilibrados para caírem ao solo, que estas quedas provocam lesões que por vezes os tornam paraplégicos a ponto de terem de ser sacrificados.
Já quem é a favor argumenta que os cavalos e touros que participam dos eventos são escolhidos entre os melhores e mais fortes do rebanho.
Após serem escolhidos, escapam da castração, e passam a serem preparados para serem atletas, tratados com as melhores rações e suplementos, usam piscina para se exercitarem, são transportados em caminhões especialmente preparados e acolchoados, trabalham sete segundos por noite, apenas aos fins de semana, e ao se aposentarem geralmente são poupados do abate e vão viver nas fazendas dos seus criadores, livres leves e soltos.
Também argumentam que os eventos geram milhares de empregos diretos e indiretos, que geram receitas para os municípios onde os eventos ocorrem, para os empresários envolvidos, para os donos das companhias de rodeio, para os peões, etc…
Continua.