André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
Esta semana um assunto tomou conta da cidade de Andradina: A não realização da festa do peão, ou Expoan, como queiram, quebrando uma tradição de décadas.
Em meio a tantas discussões e argumentos conflitantes, me permiti pensar em como as antigas tradições estão acabando. Me lembro que na minha infância a Expoan era a festa mais tradicional da região. Quando era adolescente e até mais recentemente, em 1995 acho, me lembro do show da Ivete Sangalo, e de como toda a frente do parque foi tomada por centenas de ônibus estacionados, vindos de todas as cidades da região.
Mas, assim como as folias de reis, as quadrilhas juninas, as boates, muitas tradições estão se perdendo, devido a diversos fatores.
Dentre estes fatores, eu colocaria a nova geração, cada vez mais informatizada, cada vez mais logada, mais on line, cada vez mais dentro de seus quartos, imediatista.
Outro fator é que, a geração passada, que era ligada nestas tradições, está envelhecendo.
Mas, sem dúvida, o fator mais importante para o desaparecimento das grandes festas é, sem dúvida, o financeiro.
Para quem não sabe, a Expoan de Andradina funcionava onde hoje fica a rua Barão do Rio Branco cruzamento com a Paraíba. Até uns anos atrás, havia pedaços de concreto da antiga entrada do recinto neste cruzamento. O Recinto atual, no bairro Santa Cecília, foi doado nos anos 80 pelo médico veterinário, fazendeiro, pecuarista, ex-deputado federal e ex-prefeito Dr Orensy Rodrigues da Silva, cujo pai foi homenageado e emprestou o nome ao local, Miguel Rodrigues da Silva.
Ocorre que o terreno foi doado não ao município, mas ao sindicato rural que, por muitos anos, organizou aquela linda festa, que se tornou tão famosa com seus expositores de veículos, máquinas agrícolas, móveis, parque de diversão, bares, lanchonetes, restaurantes, rodeios e shows com os principais artistas do país. Todavia, a festa dava prejuízo, e em dado momento o sindicado precisou vender sua sede, localizada no cruzamento das ruas José Augusto de Carvalho e Barão do Rio Branco, onde hoje existe um posto de combustíveis desativado, para pagar dívidas.
Após este evento, a festa passou a ser inteiramente promovida pela iniciativa privada, e diminuiu consideravelmente de tamanho. Nos últimos anos, já não havia nenhuma exposição no recinto, apenas o rodeio, os shows, a boate, e as barracas de comidas e bebidas. Ate que, agora em 2025, a empresa que promovia o evento decidiu por não fazer. Motivo? Prejuízo.
Imagine você, leitor, que para que aquela festa seja organizada, é necessário contratar uma equipe de rodeio, arcar com despesas de aluguel de toda a estrutura de arquibancadas e cercas, equipe de segurança, geradores, ambulância, enfermeiros, seguro, locutores, pagamento de prêmios aos peões, propaganda e divulgação nas mídias, e o principal, pagamento do cachês dos cantores. Para a boate, as mesmas despesas: aluguel da estrutura da boate, seguranças, geradores, da empresa que vende convites, contratação dos cantores, compra de bebidas, aluguel de banheiros químicos, etc.
Ocorre que os valores estão surreais. Para a boate, nenhum cantor ou banda se apresenta por menos de R$ 30.000,00. Já para os shows principais, os valores vão de R$ 200.000,00 a 1 milhão, e a bilheteria e patrocínios simplesmente não arrecada esse valor, motivo pelo qual a festa em geral dá prejuízo.
Com certeza alguns dirão: Mas e as cidades que fazem a festa de portões abertos, que não cobram nada? É gratuito? Qual a mágica?
Nenhuma. Nada neste mundo é gratuito, os gastos são os mesmos, e continuam lá, só a fonte pagadora é que muda, e no caso das cidades que fazem a festa sem cobrar ingressos, a fonte pagadora é a prefeitura, que utiliza recursos do cofre público para bancar todas as despesas elencadas acima.
A grande questão é: Vale a pena gastar uns bons 5 milhões por quatro dias de festa, para alegrar os munícipes, ou investir este dinheiro em diversas outras áreas como asfalto, esgoto, construção de creches, contratação de médicos, professores, etc.
Percebam que não estou defendendo um lado ou outro, apenas colocando os fatos como eles são, de forma simples e didática, para que todos tenham a percepção da nossa realidade atual.
Uma cidade da nossa região irá trazer o cantor Gustavo Lima para um show de portões abertos. Ele cobra atualmente entre 2 milhões e meio a 3 milhões por show.
O cachê da cantora Madona, em maio de 2024, no Rio de Janeiro, foi de 17 milhões de reais. Há quem defenda este gasto de dinheiro público, argumentando que no período ocorre crescimento de gastos de turistas em hotéis, postos de combustíveis e restaurantes da cidade, mas o fato é que 3 milhões aqui, e 17 milhões no Rio, saíram dos cofres públicos. Isso é bom ou ruim? Deixo o pensamento com vocês.