André Davi Martins é Sargento da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
“Em suas crises de abstinência, Rafael ficava muito violento a ponto de agredir membros da própria família”. Um dia brigou com seu pai, um arrancou sangue do outro. A família inteira chorava e sofria. Outro dia ele teve a capacidade de vender um aparelho de fazer inalação do seu próprio sobrinho doente. Este sobrinho frequentemente ia ao médico e foi diagnosticado com uma síndrome rara e com uma leve deficiência mental, nem isso foi levado em consideração por Rafael. A coleção de facas do pai, as panelas da mãe, tudo virava moeda de troca na biqueira…
Rafael estava tão alucinado em ter algo para trocar por droga que subiu no telhado e entrou no quarto (cuja porta já ficava trancada) da sua mãe para pegar o aparelho de som, só que ele não conseguiu sair de lá por que era muito alto para escalar de volta, não alcançava o telhado, ficou um rombo enorme no teto revestido de madeira.
A família do dependente também sofre com os efeitos da droga, mesmo não usando nenhuma substância, é a chamada co-dependência, sofre dos mesmos sintomas: ansiedade, nervosismo, raiva, dor, só por ver seu ente querido se drogar, se deteriorar, morrer em vida, todos adoecem juntos. A sensação de impotência, de ver uma vida se esvaindo sem poder fazer nada é terrível.
Os irmãos de Rafael sentem muita raiva dele; raiva, amor e saudades. O dependente se autodestrói e acaba com tudo em sua volta sem se dar conta da nocividade de seu comportamento.
Rafael destruiu sua vida muito cedo, não teve o prazer de sentir o friozinho na barriga com o beijo da primeira namorada, não teve o primeiro emprego, não aprendeu a dirigir, não passou no vestibular, não sentou em uma roda para tocar violão ao lado de uma fogueira, não teve sonhos, desejos e frustrações normais do ser humano. As páginas do seu livro da vida estão em branco e ele sabe que praticamente está tudo acabado, pois está preso, doente, longe da família. Quando sair, se sair um dia, vai ser mais um dos milhares de anônimos que perambulam por aí sem emprego, sem história, habilidade, sem nenhum curso…
Uma vez a irmã de Rafael perguntou: Por que vc usa drogas se isso está acabando com sua vida e com a vida de toda nossa família? Ele respondeu que usar droga não é algo ruim, muito pelo contrário, que a droga oferece uma sensação muito boa, que o ruim é quando esse efeito acaba, que ele tem consciência que virou um trapo humano, que fica deprimido e triste e que para passar esse sentimento usa mais e mais droga… É um ciclo vicioso sem limites…
Outra característica típica do usuário de droga é a transformação de sua personalidade, o usuário sofre uma mudança física no cérebro, perde a noção do certo e errado e tem desvios de comportamento, engana pai, mãe, mente para o patrão dizendo que está doente, mente para esposa, filhos, enfim mente para si mesmo e o mais importante: Não sente remorso por isso. Deixa de sentir necessidade de tomar banho, de escovar dentes, etc…
Dizem que o tempo cura tudo, mas a destruição que a droga causa no usuário e em sua família são doloridas demais, dor que nem o tempo apaga.
Um erro muito comum quando se enfrenta este problema é tentar dissuadir o viciado dizendo a ele que usar drogas é algo ruim. A droga causa uma sensação de bem estar indescritível e isso vai contra a declaração de que droga faz mal. Se fosse ruim, ninguém usava. É como cigarro, bebida… Tudo isso traz uma efêmera sensação de bem estar. Uma muleta psicológica.
O problema reside nos efeitos colaterais que o uso das drogas lícitas ou ilícitas traz, ou seja, os problemas de saúde, psicológicos, familiares, financeiros, profissionais, etc.
Tenham certeza de uma coisa, pais e mães: A droga está por aí, ao alcance de seus filhos. Trancá-los em casa não resolverá o problema e não evitará que eles tenham contato com tudo isso mais cedo ou mais tarde.
A orientação precoce, a educação, a prevenção, o cuidado diário, o papo olho no olho, a fiscalização no seu comportamento e em seus pertences sim, terão efeito positivo. Cuidem, fiscalizem, perguntem, sigam se necessário.
Se notarem algo errado, não sintam vergonha, procurem ajuda das pessoas e dos órgãos que existem para lidar com estas situações como Amor Exigente, CAPS AD, Conselho Tutelar, Polícia Civil, Polícia Militar, etc.
“Amar não é cortar as asas, mas orientar o voo”.