André Davi Martins é Sargento da Polícia Militar, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.
Rafael era um garoto bonito. Tinha um dom natural para desenhar e cuidar do próximo. Não era difícil surpreendê-lo dando comidinhas para os pássaros ou água para os cachorros na rua.
Teve uma infância normal. Foi à escola, estudou, teve amigos. Sua família era classe média, tinha pai e mãe, irmãos e irmãs. Tinha a sua bicicleta, presente de natal. Papai trabalhava bastante e ficava fora o dia todo enquanto a mamãe tomava conta de todos. Tudo era felicidade.
Então, um dia, veio a adolescência, época de descobertas e de rebeldias. Época de sair de casa sozinho com os amigos, ir a festinhas. Rafael passou a acordar mais tarde que o normal, respondia para o papai e para a mamãe e já não se empenhava tanto na escola. Seus amigos eram estranhos e não olhavam olho no olho. Tinha então seus quinze anos.
Rafael agora passava muito tempo fora de casa. Passava praticamente o dia todo na rua. Quando perguntavam por onde andava, dizia que estava por aí e que estava tudo bem. Ninguém sabia, mas ele já estava fumando maconha.
Com o tempo Rafael simplesmente deixou de ir à escola. Deixou de viver a sua vida e passou a ser escravo da droga. Um dia a maconha deixou de fazer efeito e um bom amigo, daqueles do peito, lhe apresentou o crack. Ele fumou e gostou. Delícia!!! Uma vez e já estava viciado.
O vício chegou rapidamente e cobrou seu preço. Os objetos de casa começaram a sumir. Dinheiro sumia, objetos pequenos sumiam. No auge da crise, até as panelas ficavam trancadas em uma caixa de madeira e a chave do cadeado ficava pendurada no pescoço da mãe. Tudo era trocável por crack.
A família sofria. Sofria e o internava. Foram mais de dez internações em clínicas particulares e caras, muito caras. Toda vez que ele saía, ele tinha recaídas e voltava para o vício. A família sofria e gastava.
Em muito pouco tempo Rafael foi tragado para o mundo paralelo. Já não ia para casa, já não tomava banho todo dia, já passava longos períodos na rua, perambulando. Dentro dele, ainda havia aquela pessoa boa, meiga, amiga de todos, mas seu cérebro já tinha vida própria e o empurrava para mais e mais crack.
Certa ocasião, uma irmã, sabendo que ele estava morando em uma praça ali perto, levou-lhe alimentos. Imediatamente após recebe-los, os dividiu. Mesmo com fome e vergonha de sua situação, repartiu o alimento quentinho que acabara de receber com seus “amigos”, pessoas que assim como ele, já não tinham forças para mudar seus destinos.
Rafael estava tão magro, tão cabeludo, que já causava medo em quem ele se aproximava. Um dia foi até o prédio onde morava sua irmã e pediu pelo interfone, comida. Sua irmã, com vergonha, mandou um pote com comida, mas não teve coragem de descer e entregar pessoalmente.
Enquanto Rafael se afastava, sujo e com fome, carregando a sacolinha plástica com o pote de comida, seu irmão chorava com vergonha do gesto covarde que tinha praticado. Esse gesto a marcaria para sempre. Nunca mais se recuperaria…
Sua mãe, em uma ocasião, saindo do metrô, o avistou. Ele estava junto com outros viciados. Ela fingiu que não o viu e seguiu seu caminho. Rafael olhou, viu sua mãe, mas não falou nada. Mamãe foi chorar em casa, com vergonha de seu gesto, com vergonha de ter fingido não ter visto o filho.
Rafael passou a praticar pequenos furtos para sustentar seu vício. Furtava e comprava crack. Foi preso e liberado. Vivendo nas ruas, se recusava a ser ajudado. Por dentro ainda era o menino meigo e carinhoso, com o dom divino de ajudar as pessoas, mas o vício pedia mais e mais droga e isso custava dinheiro.
Em pouco tempo vieram o acúmulo de condenações e Rafael foi para o Sistema Prisional. Condenado a mais de 10 anos de prisão em regime fechado, está preso desde 2010.
Hoje a família olha as fotos, lamenta e chora. Rafael escreve para a avó materna e lhe pede dinheiro. Diz que é para comprar sabonete e papel higiênico. Sua avó sabe que é para pagar o traficante que lhe fornece crack dentro do presídio, mas mesmo assim manda o dinheirinho que tira da aposentadoria, pois sabe que esse dinheiro o mantém vivo lá dentro. Se ele deixar de pagar o traficante, vai aparecer morto.
Esta história é verdadeira e todos os fatos efetivamente ocorreram. Que sirva de lição para que medidas sérias sejam tomadas no sentido de promover ações concretas para minimizar esse câncer que corrói nossa sociedade e nossas famílias.