4 de setembro de 2026

Produção industrial volta a crescer em julho, mas Fiesp pondera que avanço não configura retomada do dinamismo industrial

Produção industrial volta a crescer em julho, mas Fiesp pondera que avanço não configura retomada do dinamismo industrial

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Estímulos à demanda têm efeito menor que o esperado, enquanto crédito caro e tarifas ampliam as restrições à atividade da indústria de transformação

A produção industrial avançou 0,2% em julho de 2026, após recuo de 1,6% em junho, considerando dados sem efeitos sazonais. A indústria geral voltou a crescer na margem, mas o avanço não é suficiente para caracterizar uma retomada do dinamismo industrial.

As sondagens mais recentes apontam demanda enfraquecida, estoques acima do desejável e deterioração das expectativas para os próximos meses. A cautela é ainda maior em relação à indústria de transformação, cuja fraqueza se tornou mais disseminada em 2026.

A indústria extrativa, por sua vez, tende a ser mais resiliente, por se apoiar em projetos de longa maturação e na demanda global por commodities, e deve continuar como principal sustentação do crescimento industrial em 2026.

Os indicadores antecedentes sugerem que essa fragilidade do setor manufatureiro deve persistir nos próximos meses. O Indicador Antecedente da Indústria de Transformação (IAT), elaborado pela Fiesp para antecipar os ciclos de expansão e desaceleração da produção do setor com antecedência média de seis meses, perdeu impulso ao longo dos últimos meses.

Como o indicador antecede o ciclo da produção, essa perda de impulso sinaliza a continuidade do baixo dinamismo da indústria de transformação no 2º semestre de 2026.

Em julho, 13 dos 25 ramos pesquisados registraram crescimento na produção. A influência positiva mais importante foi assinalada por equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+12,2%). Por outro lado, entre as 12 atividades que recuaram, indústrias extrativas (-1,0%) exerceram o principal impacto negativo, puxado principalmente pela menor extração de minério de ferro.

Entre as grandes categorias econômicas, ainda na comparação com junho, bens de consumo duráveis (+3,2%), bens de capital (+2,4%) e bens de consumo semi e não duráveis (+0,5%) registraram os avanços, enquanto o segmento de bens intermediários (-0,2%) assinalou o único resultado negativo.

A projeção da Fiesp indica crescimento de 1,4% da produção industrial em 2026, após alta de 0,6% em 2025. A expansão deverá permanecer concentrada na indústria extrativa, com avanço estimado de 6,9%, enquanto a indústria de transformação deve apresentar estabilidade no ano.

Com crédito caro, alto endividamento das famílias, demanda mais fraca, maior concorrência de importados e tarifas mais altas nas exportações, o balanço de riscos se deteriorou: a probabilidade de retração da indústria de transformação em 2026 subiu de 33,7% no 1º trimestre para 49,4% no 2º trimestre.

Além disso, os estímulos fiscais e creditícios têm se mostrado insuficientes para conter a perda de dinamismo do setor, apesar da renda das famílias ainda em patamar elevado e do avanço dos investimentos públicos subnacionais.

Nesse cenário, a projeção de estabilidade para a indústria de transformação em 2026 passa a apresentar viés de baixa, após queda de 0,2% em 2025.

Análise de desempenho

A produção industrial registrou avanço de 0,2% em julho de 2026, após recuo de 1,6% em junho, considerando dados sem efeitos sazonais. O resultado veio próximo da projeção da Fiesp (+0,3%) e abaixo da expectativa do mercado (+0,5%). A expansão refletiu o crescimento da indústria de transformação (+0,5%) e a queda da indústria extrativa (-1,0%) – Gráfico 1. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, por outro lado, a produção industrial recuou 0,5%.

O resultado da atividade industrial na passagem para julho foi influenciado pelo crescimento de 13 dos 25 setores pesquisados. Entre as atividades, as influências positivas mais importantes foram assinaladas por equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (+12,2%), produtos alimentícios (+1,0%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+1,1%), com todas interrompendo dois meses consecutivos de queda na produção. Por outro lado, entre as 12 atividades que recuaram, indústrias extrativas (-1,0%), impressão e reprodução de gravações (-17,2%), produtos diversos (-9,0%), metalurgia (-1,4%), produtos químicos (-0,8%) e celulose, papel e produtos de papel (-1,3%) exerceram os principais impactos negativos.

Entre as grandes categorias econômicas, ainda na comparação com junho, bens de consumo duráveis (+3,2%), bens de capital (+2,4%) e bens de consumo semi e não duráveis (+0,5%) registraram avanços, enquanto o segmento de bens intermediários (-0,2%) assinalou o único resultado negativo.

Na variação acumulada em 12 meses, a produção industrial registra alta de 0,6% – Gráfico 3. Além disso, a indústria de transformação apresentou redução de 0,5%, e a produção da indústria extrativa registrou alta de 6,5% em 12 meses.

Os indicadores de alta frequência reforçam o diagnóstico. Em agosto, o Índice de Gerentes de Compras (PMI) do setor industrial, elaborado pela S&P Global, caiu de 47,5 para 46,3 pontos, registrando a segunda deterioração mensal consecutiva e a contração mais intensa em 40 meses. A produção e os novos pedidos recuaram nos ritmos mais fortes desde abril de 2023, diante da demanda enfraquecida, da concorrência elevada e da relutância dos clientes em iniciar novos projetos. Os pedidos para exportação também caíram pelo quarto mês, na maior intensidade em pouco mais de três anos e meio, com redução das vendas sobretudo para Argentina e Estados Unidos.

Na mesma direção, o Índice de Confiança da Indústria (Ibre/FGV) caiu 3,5 pontos, para 93,7 pontos, com piora da Situação Atual e das Expectativas. A confiança do consumidor (Ibre/FGV) recuou para 84,7 pontos, menor nível desde novembro de 2022, reforçando a perspectiva de menor demanda por bens duráveis. A pesquisa Sensor, elaborada pela Fiesp, também reforçou esse quadro: marcou 48,8 pontos em agosto, abaixo da linha de 50,0 pontos, indicando contração da atividade industrial paulista, com mercado e vendas aquém do desejado.

Mesmo após quatro cortes, a Selic está em 14,00% ao ano e a taxa real segue próxima de 9%. O crédito também continua caro: nas operações com recursos livres, a taxa média alcança 25,4% ao ano para empresas e 60,0% para pessoas físicas, restringindo investimentos e consumo. A inadimplência das pessoas físicas atingiu 7,8% em julho, o maior nível da série histórica iniciada em março de 2011. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias permaneceu em 49,8%, enquanto o comprometimento da renda, que corresponde à parcela da renda mensal destinada ao pagamento de prestações, juros e encargos, alcançou 28,9% em junho. Ambos permaneceram próximos das máximas históricas.

Além das condições financeiras, a perda de ritmo da atividade e as incertezas associadas ao cenário eleitoral, à orientação futura da política econômica e à transição da reforma tributária estimulam empresas a postergar decisões de gasto. Nesse ambiente, o investimento privado tende a permanecer contido. Embora os investimentos dos entes subnacionais atuem como amortecedor no curto prazo, esse impulso compensa apenas parcialmente a fraqueza subjacente do investimento privado.

Ademais, apesar de continuar em patamar elevado, a massa salarial real recuou 1,2% no 2º trimestre frente ao trimestre anterior, primeira queda em oito trimestres. Se esse movimento persistir, pode enfraquecer o consumo e as encomendas industriais. Além disso, a perda de dinamismo da indústria de transformação ocorre apesar dos estímulos fiscais e creditícios direcionados à demanda ao longo do ano. Medidas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o Move Brasil, o Minha Casa Minha Vida e o Desenrola 2.0 oferecem sustentação, mas não têm sido suficientes para compensar os efeitos defasados dos juros elevados e da deterioração das condições de crédito sobre a produção.

Em busca de identificar as causas da fraqueza atual da indústria de transformação, agrupamos 22 atividades da indústria de transformação conforme sua sensibilidade à taxa de juros[1]. Os resultados apontam que, em 2025, a queda da produção ficou concentrada nos setores mais sensíveis aos juros, que representam cerca de um terço da indústria e concentram atividades como veículos, máquinas, móveis, metalurgia e minerais não metálicos: esse grupo recuou 3,9%, enquanto o menos sensível cresceu 2,3% em 2025.

Em 2026, porém, a fraqueza se tornou mais disseminada. A melhora aparente do grupo mais sensível aos juros e do grupo intermediário é explicada, sobretudo, pelo desempenho de veículos e de coque e derivados de petróleo, respectivamente. No primeiro caso, o avanço está associado aos incentivos recentes à aquisição de automóveis e à renovação da frota de caminhões. No segundo, reflete principalmente fatores de oferta ligados à atividade de refino. Juntos, esses dois setores representam cerca de 23% do peso da indústria de transformação. Excluídas essas atividades, os três grupos registram queda entre o 4º trimestre de 2025 e o 2º de 2026. O grupo mais sensível aos juros, sem veículos, registra -0,2% em vez de +2,6%. O intermediário, sem coque, recua para -0,5% em vez de +4,0%. E o grupo menos sensível permanece em -2,1%, porque nenhuma das duas exclusões o afeta.

Esse comportamento indica que a fraqueza da indústria em 2026 já não se limita aos setores mais afetados pelos juros. Mesmo com os cortes recentes da Selic, que permanece em nível muito elevado, não houve recuperação disseminada, indicando que outros fatores também vêm restringindo a atividade, como a perda de impulso da renda, o menor dinamismo da demanda doméstica e as restrições provenientes do cenário externo. Assim, a redução dos juros tende a beneficiar primeiro os setores mais sensíveis, mas, isoladamente, não será suficiente para reverter o quadro.

A esses fatores domésticos soma-se o cenário externo. O tarifaço dos Estados Unidos acrescenta uma restrição direta à indústria de transformação. Segundo a pesquisa Rumos da Indústria Paulista, elaborada pela Fiesp com 174 exportadoras paulistas entre 10 e 28 de agosto, quase 70% perderam pedidos e 42,9% relataram queda superior a 25%. O choque já alcança a produção e as margens: 41,4% reduziram a utilização da capacidade instalada e 28,6% comprimiram margens. Como 45,2% não cogitam novos mercados e 36,0% não encontram compradores domésticos, cresce o risco de menor produção, investimento e emprego.

Diante desse conjunto de restrições, o balanço de riscos para a indústria de transformação em 2026 tornou-se mais adverso. A probabilidade de retração do setor no ano subiu de 33,7%, na estimativa do 1º trimestre, para 49,4% no 2º trimestre, alta de 15,7 pontos percentuais. A contração, hipótese minoritária no início do ano, tornou-se praticamente tão provável quanto o cenário de estabilidade.

Nesse contexto, a Fiesp projeta alta de 1,4% para a produção industrial em 2026, após avanço de 0,6% em 2025. O crescimento deverá permanecer concentrado na indústria extrativa, com expansão de 6,9% no ano, ante 4,9% em 2025, enquanto a projeção para a indústria de transformação indica estabilidade em 2026, com viés de baixa, após recuo de 0,2% em 2025.

Para 2027, a possível perda de impulso dos investimentos subnacionais após o ciclo eleitoral acrescenta risco à atividade industrial. Esse amortecedor tende a enfraquecer em um momento no qual os efeitos defasados dos juros elevados ainda deverão repercutir sobre decisões de investimento privado.

Mais sensíveis: veículos automotores, reboques e carrocerias; máquinas e equipamentos; equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos; produtos de madeira; móveis; produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos; máquinas, aparelhos e materiais elétricos; produtos têxteis; metalurgia; e produtos de minerais não metálicos. Intermediários: confecção de artigos do vestuário e acessórios; produtos do fumo; produtos de borracha e de material plástico; preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados; produtos diversos; bebidas; e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis. Menos sensíveis: produtos químicos; celulose, papel e produtos de papel; outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores; produtos alimentícios; e produtos farmoquímicos e farmacêuticos.

Federação das Indústrias do Estado de São Paulo

Assessoria de Imprensa