As recentes mudanças nas Diretrizes Alimentares dos Estados Unidos (2025–2030), que passaram a recomendar maior consumo de alimentos integrais e a redução de produtos altamente processados, reacenderam o debate global sobre ultraprocessados e alimentação baseada em “comida de verdade”. No Brasil, esse debate já está amadurecido, há mais de dez anos, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, referência internacional em políticas públicas de alimentação e nutrição.
Durante décadas, modelos estrangeiros, como a tradicional pirâmide alimentar norte-americana, influenciaram recomendações adotadas em diversos países. Com a consolidação do Guia Alimentar brasileiro, o país passou a orientar suas políticas a partir da própria realidade social, cultural, ambiental e econômica, sem depender de diretrizes externas.
Consumo de ultraprocessados
Dados do IBGE indicam que os alimentos ultraprocessados já representam cerca de 23% das calorias consumidas pelos brasileiros, percentual que cresce de forma contínua, especialmente entre crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, 24,2% dos domicílios brasileiros viviam algum grau de insegurança alimentar em 2024, o que evidencia que a discussão sobre alimentação saudável vai além de escolhas individuais e envolve desigualdades estruturais e políticas públicas consistentes.
Para o Conselho Federal de Nutrição (CFN), a atualização das diretrizes dos Estados Unidos sinaliza uma inflexão importante, mas também confirma que o Brasil já percorreu esse caminho de forma mais ampla e estruturante. O Guia Alimentar brasileiro se diferencia por adotar a classificação dos alimentos segundo o grau de processamento e por reconhecer a alimentação como prática social e direito humano, e não apenas como soma de nutrientes.
Segundo a presidente do CFN, Manuela Dolinsky, o debate internacional reforça a atualidade do modelo brasileiro. “Enquanto outros países começam agora a questionar os impactos dos ultraprocessados, o Brasil já dispõe de um guia que orienta escolhas alimentares a partir da comida de verdade, do respeito à cultura alimentar e da promoção da saúde coletiva. Não há necessidade de importar modelos quando temos uma diretriz sólida, reconhecida mundialmente e adequada à nossa realidade”, afirma.
O CFN também chama atenção para abordagens que priorizam exclusivamente o aumento do consumo de proteínas animais, como observado em pontos das diretrizes norte-americanas. Estudos associam a produção intensiva de carnes a impactos ambientais relevantes, além de riscos à saúde quando há aumento no consumo de gorduras saturadas, especialmente em contextos de desigualdade no acesso à saúde e à alimentação adequada.
Para o diretor-tesoureiro do CFN, Fernando Nunes, o Guia Alimentar brasileiro oferece respostas mais abrangentes aos desafios atuais. “O Guia vai além do nutricionismo e dos cálculos de macronutrientes. Ele orienta políticas públicas, programas como a alimentação escolar e ações no Sistema Único de Saúde, promovendo sistemas alimentares sustentáveis, acessíveis e socialmente referenciados”, destaca.
No Brasil, cerca de 30 milhões de estudantes dependem diretamente de políticas públicas de alimentação escolar, o que torna estratégica a adoção de diretrizes alinhadas ao Guia Alimentar, fortalecendo a agricultura familiar, a produção local e o acesso a alimentos adequados.
Diante do cenário global, o CFN reforça que experiências internacionais podem contribuir para o debate, desde que analisadas de forma crítica e compatíveis com os princípios da saúde coletiva, da equidade, da sustentabilidade e do direito humano à alimentação adequada. O posicionamento é claro: o Brasil não precisa retomar antigas dependências conceituais. O país já possui uma diretriz própria, robusta e atual para orientar sua política alimentar e nutricional.
Assessoria de Imprensa CFN