Campanha alerta que 38% das doações no país são de reposição; médica hematologista explica como uma única bolsa pode salvar até 4 vidas e quem está apto a doar.
O mês de junho chama a atenção para uma das ações mais simples e, ao mesmo tempo, essencial para a saúde pública: a doação de sangue. Marcado pela campanha Junho Vermelho, o período busca conscientizar a população sobre a necessidade de manter os estoques abastecidos durante todo o ano e estimular a formação de uma cultura permanente de doação voluntária.
Os dados mais recentes demonstram que, apesar dos avanços registrados nos últimos anos, o Brasil ainda enfrenta o desafio de ampliar o número de doadores regulares. De acordo com dados divulgados este ano pelo Ministério da Saúde, o país registrou 3,31 milhões de coletas de sangue em 2024, um crescimento de 1,9% em relação a 2023, quando foram coletadas 3,24 milhões de bolsas. Em 2025, somente entre janeiro e outubro, os números preliminares já apontavam 2,71 milhões de coletas em todo o território nacional.
A médica hematologista e professora da Afya Ipatinga, Dra Marita de Novais Costa Salles, explica quais procedimentos demandam mais transfusões de sangue. “O transplante de medula óssea utiliza grandes quantidades de hemocomponentes, mas outros, como o transplante hepático, também exigem muito sangue. Pacientes com doenças hematológicas, como leucemias e linfomas, frequentemente precisam de transfusões durante o tratamento. O mesmo pode ocorrer em alguns casos de câncer, já que a quimioterapia pode levar à necessidade de reposição sanguínea. Além disso, acidentes, grandes cirurgias, cirurgias cardíacas e hemorragias pós-parto também estão entre as principais situações que exigem transfusão.
De acordo com a especialista, a pessoa que doa sangue fornece o chamado sangue total, que depois passa por um processo de fracionamento, dando origem a diferentes componentes, como hemácias, plaquetas, plasma e crioprecipitado.O concentrado de hemácias é utilizado principalmente em casos de anemia e hemorragias. As plaquetas são importantes para pacientes com sangramentos relacionados à baixa contagem plaquetária, como em alguns tratamentos e após transplantes. Já o plasma e o crioprecipitado possuem fatores de coagulação e podem ser necessários em situações como doenças hepáticas, alguns tipos de leucemia e grandes cirurgias.
Assim, uma única doação pode beneficiar diferentes pacientes, já que cada componente é destinado conforme a necessidade.
Mudança de critérios para doação de sangue
Para ampliar a participação da população, o Ministério da Saúde adotou medidas como a redução da idade mínima para doação de 18 para 16 anos, mediante autorização dos responsáveis, e a ampliação da idade máxima para 69 anos, desde que o candidato atenda aos critérios de saúde exigidos.
Dra Marita de Novais comenta que o primeiro critério para ser doador de sangue é estar em boas condições de saúde. Além disso, a pessoa não pode ter anemia, deve pesar mais de 50kg e não pode ter tido infecções recentes. Também é necessário avaliar o intervalo após vacinas, exames e alguns procedimentos, já que cada situação tem um período específico de restrição.
“Existem alguns casos que costumam gerar dúvidas. Um deles é a cirurgia bariátrica. Pessoas que já realizaram esse procedimento são consideradas inaptas para doação, pois podem apresentar deficiência de vitaminas e maior risco de anemia. Outro exemplo são pessoas que viveram em determinadas regiões da Europa nos anos 1980, devido ao risco associado à doença da vaca louca. Também existem as inaptidões temporárias, em que a pessoa fica impedida de doar por um período e pode voltar a fazê-lo posteriormente, como após uma endoscopia. Já as inaptidões definitivas incluem algumas doenças cardíacas, como o infarto”, complementa a especialista.
Essas regras têm como objetivo garantir a segurança tanto do doador quanto do receptor e seguem a legislação vigente. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a taxa média de doação de sangue no Brasil é de 15,1 doações por mil habitantes. Outro fator que limita avanços mais expressivos é o elevado percentual de doadores de reposição, que representam cerca de 38% dos doadores brasileiros. Trata-se de pessoas que costumam doar apenas quando um amigo ou familiar necessita de transfusão e que, em grande parte dos casos, não retornam aos hemocentros para novas doações.
Segundo a docente da Afya, ainda existem muitos mitos relacionados à doação de sangue, como a crença de que o procedimento pode causar ganho ou perda de peso, ou deixar o doador debilitado. “Essas percepções não têm fundamento e destaca que todo candidato passa por uma triagem rigorosa, desenvolvida para garantir sua segurança e bem-estar. Os critérios adotados buscam assegurar que a doação não traga prejuízos à saúde do doador. Por isso, não apenas pessoas com anemia são consideradas inaptas para doar, mas também aquelas que apresentam níveis de hemoglobina próximos ao limite mínimo permitido”, conclui a hematologista.
Fonte: midiaria.com