ANDRADINA E O COMEÇO DE TUDO

ANDRADINA E O COMEÇO DE TUDO

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André Davi Martins é Tenente da Polícia Militar, escritor, professor de tiro e mediador de conflitos do Cejusc.

De vez em quando me pego pensando em como nossa linda cidade se formou. Sou um profundo admirador da história em geral e principalmente da história da fundação e formação de Andradina. Li dois livros sobre o tema e tive o privilégio de conviver com alguém que participou ativamente da criação de nossa cidade.

Dizia o saudoso Egídio Martins Pereira, meu avô, que teve como profissão em sua adolescência adestrar cachorros para caçar onças onde hoje ficam o Frigorífico JBS e a fazenda Guanabara, que os mantimentos vinham de Araçatuba, até então única cidade existente por aqui. Quase tudo era feito na roça mesmo.

Plantava-se arroz, feijão, mandioca, amendoim, verduras, legumes. Do abate do gado vinha a carne, o couro e o sabão feito no tacho com soda e breu que eram cortados em grandes pedaços e ficavam sobre tábuas lá no alto das vigotas da área… A carne de porco era guardada na própria banha em latas e se mantinham saudáveis por meses e meses. No terreiro o paiol com milho; os porcos, cabras, galinhas e patos garantiam os ovos e a carne sempre fresca. As roupas eram feitas com o algodão colhido e “fiado” em rodas de fiar.

Da cidade vinha o sal, ferramentas, caixas e mais caixas de munição para as armas que todo mundo possuía como hoje se possui o celular. A carabina 44 ficava na cabeceira do arreio.

Contava que Moura Andrade era baixo e atarracado, gostava de uma pinguinha e tinha memória fotográfica para guardar nomes.

As pessoas moravam em “colônias”, aglomerado de casas dos funcionários das fazendas. Um baile era um verdadeiro acontecimento. Dançava-se a noite toda sob uma lona estendida no terreiro ao som de uma sanfona. O meio de transporte para chegar lá era o cavalo, charrete ou o carro de boi.

Contou que a primeira edificação de Andradina foi feita onde hoje fica a Praça Eduardo Ramalho, em frente ao colégio JBC. A energia elétrica era mantida por um gerador a diesel que ficava na Avenida Guanabara onde por muitos anos funcionou uma fábrica de tubos de concreto e hoje existe um Atacadão. A Cadeia Pública ficava onde hoje fica a Andralar, na Rua Paes Leme.

Com a chegada da linha férrea, meu avô Egídio ajudou no transporte dos tijolos (feitos na olaria do próprio Moura Andrade e que tinham o símbolo “MA” para a construção da estação ferroviária em carro de boi, assim como em carro de boi foi incumbido de levar, vindos da fazenda Guanabara, doados por Moura Andrade, um boi abatido e um barril de vinho para o churrasco de inauguração que foi feito ao lado da então novíssima estação. A “picada” que ligava a sede da Fazenda Guanabara e a estação passava onde hoje é a Rua Presidente Vargas, passando ao lado da Praça José Yarid.

Outro fato pitoresco contado por meu avô diz respeito ao seu casamento:

Moura Andrade prometeu doar um terreno para o primeiro casal a se registrar no cartório quando da sua inauguração, ao lado de onde hoje fica o Depósito Andradina, na Rua Alexandre Salomão, próximo ao centro cultural.

No tão aguardado dia ele estava, juntamente com minha avó, em primeiro na fila. Em algum momento que nem ele sabe explicar direito, foi convencido a ceder sua vez por outro casal que teve o privilégio de ser o primeiro casal a se casar no município sendo ele e minha avó então o segundo casal a colocar seus nomes no livro de registro. Este episódio é citado no livro escrito por Ernaldo Calvoso sobre Andradina.

Imagino que naquela época devia ser muito legal morar aqui. As pessoas deviam se chamar pelo nome, frequentar as casas umas das outras. Os mais empreendedores deviam fazer planos para construir suas casas de comércio nas ruas empoeiradas ou enlameadas.

Fecho os olhos e ouço o barulho dos cascos dos cavalos no chão batido, os gritos das crianças brincando na rua, o cheiro das especiarias e do café feito na hora, o bife acebolado no almoço, o bolinho de chuva e pão caseiro à tarde…

Homens vestidos de paletó e chapéu branco. Mulheres de vestidos e guarda chuvas na mão.

Uma época em que a tecnologia ainda não havia acelerado tanto a nossa vida, o único contato entre cidades era o telégrafo, cujos fios acompanhavam o traçado da linha férrea.

Enfim, era assim, devia ser bom…