ECONOMIA – Endividamento recorde reforça necessidade urgente de educação financeira no Brasil

ECONOMIA – Endividamento recorde reforça necessidade urgente de educação financeira no Brasil

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O avanço do endividamento das famílias brasileiras continua em ritmo acelerado e expõe um problema estrutural: a falta de educação financeira. Dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo mostram que cerca de 80,4% das famílias estavam endividadas em março, alta de 0,2 ponto percentual em relação ao mês anterior e 3,3 pontos acima do registrado no mesmo período do ano passado.

Levantamento da Serasa Experian reforça esse cenário ao indicar que o país já soma mais de 82 milhões de inadimplentes. A pesquisa, realizada com 1.904 pessoas, revela que 38% apontam o desemprego ou a perda de renda como principal motivo para não conseguir pagar as dívidas. No entanto, fatores ligados à gestão financeira — como desorganização (13%), gastos emergenciais (16%), apoio a terceiros (10%) e atraso em contas básicas (7%) — já representam, juntos, 46% dos motivos.

Outro dado que chama atenção é o aumento do valor das dívidas. Em média, cada brasileiro inadimplente deve R$ 6.728,51, distribuídos em cerca de quatro dívidas diferentes. O volume total já chega a R$ 557 bilhões, com crescimento de 3,35% em relação ao levantamento anterior.

Para Kelvia Carneiro, presidente da Cactvs e doutora em Administração, os números evidenciam que o problema vai além da renda. “Existe, sim, um impacto de fatores econômicos como emprego e renda, mas uma parcela significativa do endividamento está ligada à falta de planejamento. Sem educação financeira, o consumidor fica mais vulnerável a imprevistos e decisões pouco estratégicas”, afirma.

Na prática, essa desorganização aparece em comportamentos cotidianos. “Muitas pessoas não sabem exatamente quanto ganham ou gastam. O primeiro passo é organizar o orçamento doméstico: listar todas as receitas, mapear despesas e separar o que é essencial do que pode ser reduzido”, orienta.

Outro ponto crítico é o uso inadequado do crédito. Segundo a especialista, ele tem sido utilizado como complemento da renda, o que agrava o problema. “Quando o crédito entra para cobrir despesas básicas, os juros passam a consumir uma parte crescente da renda. É nesse momento que a renegociação pode ser necessária, especialmente em dívidas com taxas mais altas, como cartão de crédito e cheque especial”, explica.

Kelvia também chama atenção para erros recorrentes que alimentam o ciclo de inadimplência: parcelamentos sem planejamento, falta de acompanhamento dos gastos, desconsideração dos juros e ausência de uma reserva de emergência. “São decisões do dia a dia que, acumuladas, levam ao descontrole financeiro”, pontua.

Ferramentas digitais podem ajudar a reverter esse cenário. Aplicativos de controle financeiro, planilhas e soluções oferecidas por bancos e fintechs permitem monitorar despesas, estabelecer metas e melhorar a gestão do dinheiro. “A tecnologia já oferece suporte, mas é preciso criar o hábito de usar essas ferramentas de forma consistente”, diz.

Além dos impactos econômicos, o endividamento também afeta diretamente o bem-estar. “Estamos falando de um problema que gera estresse, ansiedade e impacta a qualidade de vida. Por isso, educação financeira não deve ser vista como algo opcional, mas como uma habilidade essencial”, reforça.

Diante do cenário de endividamento crescente, Kelvia defende que a educação financeira seja tratada como prioridade. “Quando o consumidor entende como administrar seus recursos, ele ganha autonomia, evita dívidas desnecessárias e consegue planejar o futuro com mais segurança”, conclui.

Fonte: engajacomunicacao.com.br