Vinda pelo caminho do tráfico internacional de drogas, o medicamento sai de Pedro Juan Cabalero no Paraguai, passa por Andradina, e abastece o Estado de São Paulo
Hugo Leonardo
A rodovia Marechal Rondon, importante eixo de ligação entre o interior paulista e o Mato Grosso do Sul, tem se tornado uma das principais portas de entrada ilegal de medicamentos emagrecedores no Brasil. A posição geográfica estratégica, próxima à fronteira com o Paraguai, transformou o trajeto — que passa por Andradina — em corredor para o contrabando das chamadas “canetas da magreza”.
Segundo forças de segurança “traficantes da Tirzia” passaram a utilizar rotas antes exploradas pelo tráfico internacional de drogas, adaptando a logística para o transporte dos medicamentos. O aumento nas apreensões reforça a mudança no perfil do crime. Apenas em 2025, mais de 3 mil caixas, o equivalente a cerca de 12 mil doses, foram apreendidas no Mato Grosso do Sul. Já nas duas primeiras semanas de janeiro de 2026, outras 1,4 mil caixas — aproximadamente 6 mil doses — foram interceptadas, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
Desde novembro de 2025, a entrada desses produtos no país sem registro sanitário passou a ser considerada contrabando, após determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que proibiu a importação das canetas emagrecedoras.
Na região de Andradina, as apreensões recentes chamam atenção. No dia 26 de março, 51 frascos de tirzepatida foram apreendidos. Já no dia 14, em Mirandópolis, uma mulher de 27 anos foi presa em um ônibus transportando 170 unidades de medicamentos escondidas em um travesseiro, um urso de pelúcia e até dentro de um ovo de Páscoa. Entre os produtos apreendidos estavam 140 ampolas de Tizerpattida TG 15 mg, 16 de Tirzec 15 mg, 11 de Nipoles 15 mg, duas de Tesamorelina 5 mg e uma caneta de Retratutide 40 mg.
Cinco dias depois, em Guararapes, outra mulher, de 34 anos, foi detida com 68 frascos do medicamento escondidos junto ao corpo. Ela dirigia o próprio carro e havia saído de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, cidade conhecida por ser um dos principais pontos de saída das cargas ilegais.
De acordo com as investigações, os medicamentos saem de Pedro Juan Caballero, atravessam a fronteira seca em Ponta Porã (MS) e seguem por rodovias estaduais, como a MS-164, até Três Lagoas. De lá, entram em São Paulo pela Marechal Rondon, com destino a centros consumidores. No dia 17 de janeiro, uma das maiores apreensões do ano ocorreu nesse trajeto, com 200 canetas apreendidas. Dias antes, na mesma rota, também foram interceptados 267 quilos de maconha, evidenciando o uso compartilhado das vias pelo crime organizado.
Para o chefe da Delegacia de Repressão aos Crimes Fazendários da Polícia Federal, Anezio Andrade, a mudança na legislação endureceu o combate à prática. Segundo ele, antes da norma da Anvisa, a importação para uso próprio era permitida em determinadas condições.
“Com a nova regra, tanto a importação quanto a comercialização desse medicamento em território nacional podem ser enquadradas como contrabando e crime contra a saúde pública”, explicou.
As autoridades também alertam para os riscos do consumo desses produtos sem orientação médica e de origem desconhecida. Além da possibilidade de falsificação, não há garantias sobre as condições de armazenamento e transporte, o que pode comprometer a eficácia e colocar a saúde dos usuários em perigo.
