Uma das pesquisadoras que ajudaram a consolidar a ideia de autismo como espectro agora diz que esse conceito ficou amplo demais e pode ter perdido utilidade clínica, em entrevista ao portal britânico The Times.
O que aconteceu
Uta Frith, professora emérita de desenvolvimento cognitivo do UCL (University College London), afirma que a noção de espectro foi esticada a ponto de deixar de diferenciar quadros muito distintos. Para ela, a busca por inclusão na definição ampliou demais os critérios e enfraqueceu o diagnóstico.
Na avaliação da pesquisadora, hoje falta um traço comum que una todas as pessoas que recebem o diagnóstico de TEA (transtorno do espectro autista). Ela diz que, com isso, o rótulo deixa de ajudar médicos e pesquisadores a separar necessidades e tratamentos.
Frith também relaciona a discussão ao aumento de diagnósticos nas últimas décadas no Reino Unido. Ela cita dados do NHS (serviço público de saúde britânico) segundo os quais a proporção de pessoas diagnosticadas na Inglaterra passou de 0,1% em 1998 para 1,33% em 2024, cerca de 750 mil pessoas.
O espectro ficou tão abrangente que temo que ele tenha sido esticado a tal ponto que se tornou sem sentido e não é mais útil como diagnóstico médico.
Uta Frith
Quem está puxando a alta dos diagnósticos
Pesquisadora diz que o crescimento não acontece da mesma forma em todas as faixas do espectro. Para ela, os casos identificados na primeira infância com critérios mais restritos se mantêm relativamente estáveis, enquanto aumentam os diagnósticos em jovens e adultos com queixas mais leves.
Ela descreve um segundo grupo, com pessoas sem deficiência intelectual e com boa fluência verbal, mas com ansiedade social e hipersensibilidade. Frith afirma que houve alta expressiva de diagnósticos nesse perfil, inclusive entre mulheres, muitas vezes mais tarde na vida.
Esses indivíduos não têm comprometimento intelectual e são verbalmente fluentes, mas em geral ficam muito ansiosos em situações sociais e são hipersensíveis.
Uta Frith
Sem biomarcador, definição vira disputa
Frith afirma que a falta de um biomarcador (um exame objetivo, como sangue, genética ou imagem) torna a fronteira do diagnóstico mais controversa. Ela diz que, sem esse tipo de marcador, a avaliação depende mais de comportamento e interpretação clínica. “Se tivéssemos biomarcadores, o diagnóstico não seria controverso”, defende Frith.
Pesquisadora critica ainda a popularização do tema nas redes sociais e na cultura pop, que pode estimular autodiagnósticos. Ela diz que, em alguns casos, pessoas com ansiedade social e boa comunicação passam a se identificar como autistas após ler sobre o assunto online.
O autismo ficou glamourizado, e um diagnóstico se tornou, em certa medida, desejável. Não vemos a esquizofrenia sendo glamourizada da mesma forma.
Uta Frith
Para Frith, a consequência pode ser dupla: filas maiores por avaliação e uma disputa por recursos que prejudica quem precisa de suporte mais intensivo. Ela afirma que o avanço de diagnósticos tardios pode ofuscar as demandas de pessoas com deficiência intelectual.
Essa taxa assustadora de aumento nos grupos diagnosticados mais tarde ofusca as necessidades das pessoas com deficiência intelectual, que precisam de um suporte muito mais intensivo.
Uta Frith
O que ela propõe no lugar do espectro
A pesquisadora diz que a definição básica de autismo mudou pouco, mas a interpretação do que entra no diagnóstico se ampliou com o tempo. Ela lembra que, no passado, o diagnóstico era mais restrito a crianças com prejuízos severos de linguagem e comunicação não verbal.
Ao longo dos anos, nossa definição básica de autismo permaneceu a mesma, mas foi a nossa interpretação que mudou.
Uta Frith
Ela também afirma que a ampliação pode atrapalhar estudos ao misturar grupos com causas biológicas e dificuldades cognitivas diferentes. Para Frith, isso torna mais difícil tirar conclusões claras a partir de grandes amostras. “Isso faz com que os dados que obtemos de grandes grupos fiquem muito ruidosos”, diz.
Como alternativa, Frith defende subcategorias, separando quadros de autismo infantil com critérios mais estritos, casos associados ao que já foi chamado de síndrome de Asperger e um grupo que ela descreve como hipersensibilidade. A ideia, segundo ela, é encontrar divisões mais úteis para orientar cuidado e pesquisa.
Espero que possamos encontrar subgrupos com significado, cada um com o seu próprio rótulo.
Uta Frith
O que se discute sobre a alta de diagnósticos
Especialistas costumam apontar que o aumento de diagnósticos pode ter mais de uma explicação, como maior acesso à informação e mudanças nos critérios. A alta também está relacionada a mais busca por avaliação e a ampliação do olhar para sinais antes ignorados.
O mesmo debate aparece em torno do TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), com impacto em escolas, famílias e serviços de saúde. A discussão, em geral, envolve equilibrar diagnóstico precoce, acesso a suporte e evitar rótulos imprecisos.
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Foto: Uta Frith, psiquiatra alemã conhecida por ser uma das pesquisadoras pioneiras sobre o autismo e dislexiaImagem: Reprodução/Redes sociais